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Minha história

Deus crocheteando minha história 




Sou um milagre de Deus,
Tenho orgulho da História que Ele escreveu pra mim...

Sou filha de pais missionários (Ecldino e Ilza), meu pai pastor com um coração voltado pra Deus acima de tudo, de suas falhas inclusive; minha mãe,mansa, mulher de poucas palavras, mas de profundas lições, olhar penetrante, sabia o que é chorar aos pés do Senhor e essa realmente é a impressão mais forte que tenho deles...

Quando nasci, meus pais estavam se preparando pra viver um grande sonho que lhes ardia o coração, missões, mais especificamente, entre os índios.

As recordações claras e fortes que tenho da minha infância, são exatamente no primeiro campo missionário propriamente dito, Alta Floresta, MT. Nossa casa era no meio do mato, não havia vizinhança; pra chegarmos a cidade, era um longo percurso à pé ou bons minutos de bicicleta, numa estrada de terra vermelha, e a selva dos dois lados. Meu pai, construiu toda a nossa casa, bem como tudo que havia de móveis nela, cama, guarda-roupa, mesa, cadeiras, tudo; com muito esmero por sinal, meu pai tinha como marca ser perfeccionista em tudo que colocava as mãos.

É muito forte na minha mente a impressão que aquele tempo me trouxe, embora com 5 anos de idade, me lembro da solidão gritante.
Solidão porque éramos isolados,
Solidão porque o que ouvíamos incansavelmente nesta floresta amazônica, era as araras, macacos, tucanos, cigarras, a selvarada toda... a umidade da mata alta e densa, a negridão absoluta que era muito pouco ofuscada por um lampião de luz frouxa e amarelada nas nossas noites longas. Também não tínhamos água encanada obviamente e meu pai construíra um poço, eu me lembro que tínhamos uma "escala" pra bombar manualmente água pra caixa d'água... como eu detestava levantar aquela manivela e fazer uma força enorme pra bombar a água pra cima, quando eu já tinha passado meia hora no poço e bombado 5 litros de água, meu pai vinha rindo e me mandava entrar.

Solidão, porque meus dois irmãos mais velhos, trabalhavam como alfaiates e estudavam a noite na cidade, chegavam tarde o suficiente pra eu estar dormindo e vê-los muito pouco...minha mãe era a minha companhia sempre, muitas vezes só eu e ela.

São muitas lembranças... num desses dias em que íamos só nós duas para a cidade, no meio do caminho,que era mesmo um caminho estreito no meio do mato, minha mãe viu um jabuti enorme. Eu vi só um animal vagaroso, minha mãe viu a possibilidade de termos carne pro jantar. Não acreditei quando ela decidiu levá-lo pra casa. Me recordo que ela fez uma força sobre-humana pra carregá-lo, visto que eu era muito pequena para socorrê-la com o "socorro" que Deus tinha mandado. Quando chegamos em casa, minha mãe deixou a serviço do meu pai o resto do trabalho e o menu daquele dia; pena que a carne célebre não durou só uma refeição, foi provisão mesmo... arg!

Meu pai, muitos dias e muitas vezes, saía em busca daquilo que lhe tinha feito renunciar tudo e partir pra um mundo desconhecido, perigoso e aventureiro com toda a família: os índios! Essa paixão era maior do que ele, lhe consumia a necessidade de apresentar às tribos, Jesus Cristo de Nazaré. Lhe sangrava o peito os milhares que morriam sem salvação por nunca terem ouvido falar do nome daquele pelo qual importa que sejamos salvos!

Então ele pegava um barco, com alguns preparativos primários; pouco suprimento, um punhado de sal, arroz, óleo, etc, umas panelinhas; anzol e vara de pescar (ele tinha o rio amazonas todo só pra ele),um fogãozinho de duas bocas, uma rede e muita sede de encontrar uma tribo e fazer o primeiro contato... saía num barco à deriva, sem destino, num rio sem fim, silêncio absoluto na floresta virgem a sua volta, quando o sol se punha, era hora de amarrar o barco, armar a rede na mata ao som de toda espécie de aves, na companhia de onças, capivaras, cotias e a bicharada toda... mas ali estava seu coração.

Eu aprendi no entanto que a solidão é bendita! Numa dessas viagens do meu pai,numa dessas noites silenciosas, algo divino aconteceu.
Me lembro que eu amava dormir na cama com minha mãe, direito que só me era concedido nessas ocasiões. Minha mãe no entanto, diariamente, antes de me fazer dormir, lia um livro infantil de histórias morais, apontando sempre para o evangelho. Ele era pobre de figuras preto e branco, encapado num papel de presente verde, e suas folhas se soltavam com facilidade, mas como me foram preciosos seus ensinamentos regados pelo carinho da minha mãe.

Naquele noite em questão, ela leu pra mim, orou comigo e eu deitei muito satisfeita ao seu lado. Me lembro não com muitos detalhes, mas com muita convicção (tanto quanto a tenho hoje), que acordei chorando muito porque Deus, o Todo-Poderoso, falara comigo e eu não gostara do teor da conversa.
Ele havia me convocado, falara de forma límpida e resoluta que tinha pra mim uma causa: Eu seria missionária! E tenho bem registrada a cena do meu choro inconsolável... minha mãe acordou assustada, eu lhe contei tudo como tinha sido e terminei num soluço: "...eu não quero ser missionária, porque tenho medos dos índios!!!"
Embora merecesse uma gargalhada, minha mãe entendeu o que havia se passado, entendeu que de fato havia sido o Senhor e reverenciou aquele momento quase sacro. Ela olhou nos meus olhos, levando muito à sério minha angústia,e me fez entender que missões era algo muito além e muito maior do que minha mentezinha limitada e alta florestense podia absorver. Deus não me faria ser necessariamente missionária entre os índios (aleluia), Ele me levaria pra onde quisesse, da forma que desejasse, no tempo que presumisse e me faria feliz sendo sua "garçonete do céu"... eu entendi que eu apenas serviria o Pão da Vida aos famintos dessa terra e que isso me daria alegria de viver!

Compreendendo essa verdade no meu coração, fiz uma oração chorosa, muito consciente porém, porque mesmo tão criança, 6 anos, eu já absorvera as implicações de servir à Cristo... "Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me. Porquanto quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a vida por minha causa achá-la-á." Mt. 16: 24-25.

Eu nem sonhava os caminhos que percorreria pra que isso se tornasse realidade na minha vida...

Muitas histórias pra contar, e o resumo de tudo, é que o nosso trabalho no Senhor não é vão (I Co. 15:58)... hoje há, numa das aldeias, uma Igreja que celebra e professa o nome de Jesus Cristo como único e suficiente Salvador! Aleluia!

Depois de Alta Floresta, passamos por vários estados brasileiros, em todos eles, com o mesmo propósito missionário dos meus pais: fazer o reino de Deus conhecido e estabelecido!

E os anos se passaram, meu pai agora já não tinha mais a mesma saúde de ferro, lhe pesava a necessidade de estabilizar os filhos, já não dava mais para ser aventureiro. Numa decisão pesarosa, voltamos pra São Paulo, nossa terra natal, onde ele e minha mãe se dedicariam agora à uma igreja local e meus irmãos teriam oportunidades melhores de trabalho e estudo. Meu pai não satisfeito, mesmo sofrendo com a saúde, ainda fez umas três viagens missionárias, sozinho, para construir igrejas no Paraguai. Ele era exímio em mão de obra e passava quase 3 meses fora saciando a sede da sua alma por missões.

Eu vivia minha adolescência, e tão logo pude, quis fazer seminário. Na verdade eu mal me lembrava daquela noite em Alta Floresta, minhas motivações não eram as mesmas (pelo menos em sua maioria), que levam um indivíduo ao seminário. Eu desejava uma fase nova, amigos novos, um tempo novo pra minha vida... mal sabia eu que era Deus crocheteando, mal sonhava eu que aquilo era resposta das inúmeras orações dos meus pais por mim, mal supunha eu que Deus estava me dando estrutura pra o que viria logo depois.

Fiz 3 anos no Palavra da Vida, em Atibaia, foi um tempo preciosíssimo, inesquecível, ímpar! Um tempo meu com Deus, onde eu descobri que o conhecia de forma terceirizada, quando Ele anelava se revelar a mim de modo íntimo!
Um tempo meu comigo mesma, quando eu descobri que era um Diamante precioso pro meu Senhor, mas que era sobremodo bruto, ali Deus começava um longo processo de lapidação...

Me formei em 1997, me casei em 1998, rumando mais uma vez pra uma nova fase. Nessa época, trabalhava na igreja, trabalhava secularmente, me dedicava ao ministério Hesed, (grupo itinerante de louvor e fantoche) e ao casamento também.

Meus pais então decidiram morar em Guarapari- ES, terra natal dele, já tinha se aposentado, a saúde não lhe permitia extravagância alguma, mas mesmo assim ele assistia uma igrejinha bem distante, no meio do mato também, rsrsrs, há uns bons quilômetros de Guarapari.

Quando nosso ministério já tinha ganhado mais experiência, mais dinamismo e "cara própria", pleiteamos a ida de todo o grupo pra Espírito Santo. Eu fui na frente 2 meses antes só pra fazer os contatos com entidades, igrejas, rádios, por onde passaríamos em Janeiro de 2000. Feito nosso roteiro, eu precisava voltar rapidamente pra São Paulo onde lecionaria ainda naquela semana.

Minha mãe estava muito saudosa dos filhos, nós três ainda morávamos em São Paulo, meu pai também desejava um tempo com a família de novo, ele conseguiu liberação da igreja, contagiou sua irmã, que resolveu trazer o filho também e tudo deu certo, mesmo sendo tão de última hora. Compramos coisas da terra pros meus irmãos e parentes, macaxeira, água de coco, peixe, tudo muito apreciado por um paulista que não tem esses privilégios...rsrs. Minha mãe fez a mala como a criança que vai pro shopping com o pai que acabou de receber seu salário e está de bom humor!
Meu pai, nada metódico, lavou o carro um dia antes, abasteceu, fez os últimos reparos necessários na sua perua scort, seu troféu, (por ser o único carro zero que teve a vida toda),quase lustrava todo dia, rsrs. Deixou as contas pagas, dormiu o resto do dia todo pra garantir s viagem descansado: tudo perfeito!

Fui dormir bem tarde com minha mãe, auxiliando-a nos últimos preparativos,mais uma vez só eu e ela, conversamos um pouquinho e fomos dormir vencidas pelo cansaço e a expectativa da viagem. Acordamos umas 4 da manhã, as malas e as "bugigangas" todas já estavam dentro do carro, pegamos os pertences de mão, e na porta meu pai pediu pra que eu orasse. Orei na porta da sala pedindo ao Senhor que nos levasse em paz, e descemos as escadas até o carro com a sensação que Guarapari ainda dormia...

Passamos na casa da minha tia, e em poucos minutos, estávamos todos no carro, meu pai e minha mãe na frente, eu sentada atrás do meu pai, meu primo no meio e minha tia atrás da minha mãe. Meu pai determinou que todo mundo colocasse o cinto de segurança, eu coloquei mas pensei com meus botões: "na primeira parada que a gente fizer pra tomar café, (umas três horas depois), eu tiro o cinto e não ponho mais, porque ninguém merece 11 horas de viagem presa a um cinto". ... Deus crocheteando! Minha tia orou de novo, "vai que minha oração não tivesse subido?" rsrsrs, e pegamos a estrada.

Amanhecia dia 2 de novembro de 1999, terça- feira, feriado de finados. Logo que pegamos a estrada, começou a chover muito, minha tia e meu pai conversando, eu me lembro do comentário dele "...a chuva que Deus manda!", minha mãe, silenciosa como sempre, e eu ocupando meu pensamento com o pãozinho com manteiga na chapa e o café com leite que sempre tomávamos há anos no mesmo local toda vez que fazíamos o percurso Guarapari- São Paulo. Depois que tomei meu café telepático, fiquei planejando que chegaríamos quase 17:00, e eu precisava dar uma esticada ao shopping mais próximo pra comprar um presentinho pra minha mãe que faria aniversário no dia seguinte. Eu faria um bolinho pra ela, reuniria a família, viveríamos aquele momento que se vive diariamente em milhares de casas, casebres e casarões, onde habita uma família que se ama e que tem prazer de estar junto quando um membro faz aniversário... e nesses pensamentos adormeci.

Acordei pouco tempo depois com o grito de pânico da minha mãe: "Olha o caminhão!!!",
minha mente deletou o que aconteceu imediatamente após, mas naquele exato momento, se processava a maior tragédia da minha vida. Onde estava Deus? Aquele que eu tinha pedido tão sinceramente que nos levasse em paz? Bem ali. Exatamente ali. Ele sabia como ninguém mais, que a minha maior tragédia, se converteria no meu maior milagre... conto tudo na próxima postagem!


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Passando pelo vale da sombra da morte 



Quando ouvi o grito da minha mãe, era tarde demais... o caminhão passou por cima do nosso carro, e todos os que estavam comigo no carro, morreram imediatamente. Entrei em coma, e quando recobrei os sentidos, nada mais podia ser feito... eu estava totalmente presa nas ferragens, incapaz de mover um dedo sequer, as dores eram alucinantes... o cinto de segurança que me salvou, também rasgou o meu corpo e a profundidade do corte, foi até o intestino, perdi toda a musculatura do lado esquerdo do abdomen. Tive também uma severa hemorragia interna, perfurações no útero, pulmão e intestino... sangrava muito por fora, cotovelo direito dilacerado, muita dor nas pernas, como se eu as tivesse quebrado em vários pontos... meu Deus o que foram pra mim aqueles momentos? Jamais saberia descrevê-los com exatidão, jamais transporia toda dor e desespero experimentados ali. Me lembro que quando acordei, o desespero tomou conta de mim, eu tentava respirar e o fôlego não chegava, eu sabia que estava morrendo, eu cuspia cacos de vidro, havia muito vidro em cima de mim e o meu corpo estava tomado pela gasolina, minha boca tinha gosto de sangue e gasolina. Quando eu procurava mexer alguma parte do corpo pra aliviar a dor intensa, o cinto de segurança me rasgava por dentro, a sensação que me vem à memória, era como de uma faca entrando cada vez mais profundamente... desespero, angústia, pânico, medo, sabor de morte... eu nem conseguia gritar, apenas gemia tentando com todas as forças respirar e cada tentativa de fôlego, me fazia experimentar o cinto de segurança dentro de mim.

Como eu não conseguia mover nada, nem o rosto, tudo estava espremido entre as ferragens, eu não consegui ver o estado dos corpos, e isso realmente foi um alívio pra mim. Pude ver no entanto, com dificuldade, (porque havia batido o rosto muito forte e não conseguia enxergar direito) a cabeça do meu pai caída logo a minha frente... muito caco de vidro sobre ele também, sua cabeça inclinada pro lado esquerdo, e muita "carne" em cima dele, no seu ombro, como se fosse "carne moída"... por aquela cena, eu sabia que todos estavam mortos.


No silêncio do Vale da Sombra da morte, rodeada por quatro corpos dilacerados, (eu soube depois que nenhum dos corpos foi identificado; minha prima, que fez o reconhecimento, reconheceu a própria mãe, irmão e tios, apenas pelos pés, pra que fossem enterrados) tomada pelo terror de ter perdido todos e estar morrendo, eu ouvi uma voz indescritível, cantando com a voz mais doce que eu jamais ouvira, uma música que tantas vezes eu tinha ouvido e cantado numa igreja, sem jamais atinar para complexidade delas: "Se paz a mais doce, me deres gozar... se dor a mais forte sofrer... oh seja o que for, tu me fazes saber, que feliz sempre sou com Jesus!" Enquanto vida eu tiver, jamais poderei me esquecer do que aprendi naquele momento... se você não me entendeu, leia de novo as palavras em azul, elas vão além do que eu possa tentar transmitir...


Passei muito tempo esperando por socorro, tempo suficiente pra sentir a morte como companhia, o local do acidente era de difícil acesso e a ambulância demorou muito pra chegar. Algumas pessoas foram se aglomerando em volta, mas eu tenho a memória de um senhor desesperado, suplicando a Deus por mim e dizendo que eu não ia morrer, que eu confiasse em Deus... gostaria de reencontrá-lo... ali eu não tinha forças mais pra lutar pela vida, só o Deus dos Impossíveis podia fazê-lo. Uns quarenta minutos depois (uma eternidade pra mim), a ambulância chegou. Me lembro que o primeiro procedimento foi me aplicar uma injeção e aí cortaram o cinto de segurança, quando senti aquele cinto saindo de dentro de mim, lembro-me de pensar: "Já posso morrer..." Me colocaram na ambulância e me levaram para o hospital mais próximo: "Ferreira Machado" em Campos de Goitacazes - RJ. Fizeram os primeiros socorros e a cirurgia de emergência, mas eu cheguei num quadro tão grave, que ninguém apostava na minha sobrevivência, me "costuraram" como quem "costura" um defunto, e me colocaram no corredor daquele hospital. Quando acordei, já sem noção de tempo, comecei a chamar as enfermeiras pra que alguém localizasse meu marido, meus irmãos; nada é pior do que passar por uma situação assim e não ter ninguém por você, pior ainda, sentir a indiferença das pessoas. Depois de muito suplicar, vieram duas enfermeiras com um olhar de descaso impressionante, elas achavam que eu estava agonizando, e impacientemente esperavam apenas a hora de cobrir minha cabeça com o lençol e mandar meu corpo pro necrotério... eu pedi que ligassem pra minha casa, mas elas simplesmente ignoravam. Eu não sabia exatamente como meu quadro era grave, só sabia que meu corpo não reagia, é um estado de dor e desespero contínuo; comecei a sentir que precisava evacuar, na realidade, era só a sensação, por causa da hemorragia no intestino; eu avisei as enfermeiras e elas com a sensibilidade de um rinoceronte, me levantaram o abdomen e colocaram uma "aparadeira" em mim. Obviamente não fiz nada, e eu percebi quando se aproximou de mim uma moça que estava cuidando de uma senhora bem velhinha logo ali na minha frente naquele corredor, ela realmente ficou muito compadecida do meu estado e veio até mim e disse baixinho com doçura: "Olha, se você quiser, pode fazer que eu limpo você..." Talvez você não faça idéia do que isso significou pra mim, aquela moça não teve esse infeliz trabalho, mas me marcou pra sempre, com ela eu aprendi que pessoas certas, preparadas, não são necessariamente as melhores (no caso, as enfermeiras), mas pessoas com amor no coração, mesmo que despreparadas, fazem toda a diferença! O desejo do meu coração é que o Senhor abençõe essa moça e que um dia (quem sabe no céu), eu possa dizer pra ela o que representou pra mim sua atitude cheia da graça de Deus!

Por isso que lemos na sua palavra: "Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios,e escolheu as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes; e Deus escolheu as coisas humildes do mundo,e as desprezadas, e aquelas que não são, para reduzir a nada as que são..." I Coríntios 1: 27-28. Nós somos os desqualificados, os fracos, os pequenos, os incapazes; mas somos também os Amados, os Chamados, os Escolhidos por Deus para manifestarmos sua Graça e Amor a gentinha como eu e você... Minha oração por nós, é que sempre tenhamos consciência do quanto somos "coisa nenhuma", mas que sempre sejamos "coisa nenhuma" disponíveis nas mãos do que TUDO É!!!

(Continuo contando minha história na próxima postagem)


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Bandeiras de Deus




Logo depois do episódio com "a moça" (leia a postagem anterior), um médico veio e enfiou uma seringa no meu abdômen e voltou com sangue, a hemorragia não estancava, ele apenas disse: "direto para sala de cirurgia", lá ia eu de novo... acordei e a cirurgia ainda não tinha acabado, só ouvi um assistente: "ela tá acordando", aplicaram uma injeção no meu pescoço enquanto eu tentava gritar de dor e tamparam minha boca e nariz, acho que pra adormecer logo, ou morrer de uma vez, rsrs... na hora que acordei, eles já tinham me "fechado" a barriga, e estavam colocando uma veia da perna na axila do braço esquerdo. Meu braço (eu soube depois estava comprometido) e corria o risco de gangrenar e precisar de amputação.

Nem sei quanto tempo depois eu acordei, mas me lembro de acordar na UTI e passar a noite inteira agonizando por dores que eu nem sabia mais onde eram, nem onde começavam ou terminavam, ao lado de um leproso que gritava a noite inteira "eu to todo cagado"... e ninguém aparecia,e quando aparecia era pra brigar com o pobre homem. Hoje, eu até consigo rir dessa situação, mas não queira saber o que ela custa na prática, recheada de indiferença!

Mas sabe, Deus não estava indiferente nem distante de tudo isso, pelo contrário, como Ele estava presente e eu não sabia! Num desses momentos, eu não sei exatamente a ordem, se aproxima de mim um homem sobremaneira gentil, ele fazia carinho na minha cabeça, tentando remover com cuidado os cacos de vidro ainda impregnados no meu cabelo cacheado e comprido, o que ajudava muito a ficar tudo um nó só! Ele se apresentou e nos seus olhos eu podia ver a ternura de Jesus "impregnada" nele também... puxa vida, quantas vezes o Senhor pôde se manifestar através de mim e de você? Quantas vezes Ele pôde acariciar uma cabeça com as nossas mãos? Quantas vezes Ele pôde olhar com amor e compaixão com os nossos olhos? Pastor Arnaldo, Jesus me amou e se compadeceu de mim através dos seus olhos, do seu afago e do seu interesse pela minha vida, eu sei que Ele fez isso vezes incontáveis através da sua vida, e um dia, esse olhar lhe será dado de forma indizível, face a face pelo próprio Jesus, o príncipe da Paz!!!

Esse homem, foi uma Bandeira de Deus, dizendo pra mim: "Minha filha, Eu Sou contigo... " De maneira alguma te deixarei, nunca jamais te abandonarei." Hebreus 13:5
Ele que finalmente entrou em contato com o meu marido e me trouxe notícias.
(Vou abrir um parêntesis pra contar um pouquinho do que Deus fez do outro lado...)

No dia 2, o Rodney, meu esposo ainda dormia afinal era feriado; logo cedo o telefone toca e era a Agência Funerária perguntando sobre os caixões. Ele ficou muito assustado, porque nem sabia ainda do acidente, e imaginou que por ser dia de finados, era um trote. Mas a pessoa da agência deu o número da placa do carro, ele ligou pra polícia rodoviária e certificou o acidente... pânico pra ele e para os meus irmãos que moravam ao nosso lado! A notícia começou a se espalhar como fogo num incêndio, mas eles ainda não sabiam que havia uma sobrevivente, e depois quando souberam, apenas informaram que era uma mulher, mas não sabiam dizer quem... quanto tumulto, dor, desespero pra todo mundo que nem sabia o que fazer numa hora dessas... mas pra Deus não, Ele estava no controle de todas as coisas! Cuidava pessoalmente de mim em Campos, e de todos os que sofriam nessa hora.

Meu marido e um dos meus irmãos Paulinho, foram para o Rio de Janeiro, porque não havia vôo direto pra Campos de Goitacazes,e o meu outro irmão Marcos, foi direto para Guarapari, onde seria o enterro dos quatro. Quando pousaram no Rio, receberam uma ligação avisando que a sobrevivente era eu, e no meio de tanta dor, puderam agradecer a Deus pela minha vida! E agora? Como ir pra Campos? Ônibus não tinha naquele horário, avião não fazia esse trajeto, táxi? Um absurdo! Ah! Mas existe um Deus que vai na frente abrindo os caminhos e fazendo o que ninguém mais pode fazer... O Rodney e o Paulinho já estavam desesperados sem saber o que fazer, meu marido teve a ousadia de contar pra um taxista a necessidade deles, esperando um milagre; e o milagre aconteceu!!! Aquele homem se compadeceu, e movido pelo Senhor, levou os dois num trajeto de 4 horas pra chegar até Campos e mais 4 pra voltar apenas pelo valor do combustível!!! Aquele homem perdeu seu dia todo de trabalho para abençoar pessoas que ele nem conhecia, eu sei que Deus não se esqueceu disso, e eu também desejo não me esquecer...
Que Deus é esse? Quantas Bandeiras silenciosas Deus finca no nosso caminho... bandeiras no vale da sombra da morte, que anunciam: "Não temas porque Eu sou contigo, não te assombres porque Eu Sou o teu Deus; Eu te fortaleço e te ajudo com a minha destra fiel." Isaías 41:10
Quando chegaram, não puderam me ver, mas foram recebidos por um casal (contactados pela minha prima em Guarapari), que lhes hospedaram de forma indescritível e assistiram em todas as suas necessidades, eu nunca os conheci, mas fico sem palavras diante do que fizeram por eles e por mim, até sem carro ficaram, pra que os dois pudessem cuidar das coisas do enterro, e de mim também... você percebe quantas bandeiras de Deus? Consegue ver as que Deus coloca no seu caminho? Elas estão aí, bem pertinho de você!
As vezes nós queremos manifestações de Deus, queremos que Deus fale, que Deus nos toque, que Deus apareça, que Deus se revele... e Ele está fazendo isso o tempo todo! Mas sem estardalhaço, sem alarde, pelo contrário, em completo silêncio...
Deus não precisa gritar pra anunciar o seu cuidado,
Deus não precisa aparecer de vestes brancas pra se fazer presente,
Deus não precisa dizer o que está fazendo por nós,
Ele simplesmente faz e deixa seu perfume por onde passa e nós embasbacados apenas compreendemos: "Deus esteve aqui e eu não sabia..."
As bandeiras de Deus... sugiro que você as perceba no seu caminho, te garanto que fica mais leve a jornada!


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Aniversário e enterro não combinam




O capelão do hospital, Pr. Arnaldo, (que eu mencionei na última postagem), foi quem intermediou a entrada do Rodney e meu irmão na UTI. Me lembro como se fosse hoje, que ele se aproximou de mim e fazendo carinho na minha cabeça com um sorriso terno me disse: "seu marido está aí... daqui há pouco você vai vê-lo!" Não estou certa se consegui esboçar um sorriso externo, mas meu coração se alegrou pela primeira vez. Quando eles entraram na UTI, o Rodney vinha na frente e me procurava entre os demais... ele passou por mim, olhou pra mim e continuou me procurando. Eu não entendi nada e lhe chamei baixinho pelo nome. Fui saber depois que ele não me reconheceu, eu estava totalmente preta dos pés à cabeça, com o rosto deformado, um braço do tamanho da perna... ele não me reconheceria mesmo... até hoje ele brinca que casou com uma Márcia e depois de um ano, voltou com outra pra casa...


Meu irmão se aproximou em seguida e não pôde disfarçar, seus olhos transmitiam angústia extrema e ele entrou, olhou pra mim, ficou um pouquinho ao meu lado e não disse palavra alguma. Eu apenas pedi ao Rodney que me tirasse daquele hospital e ele me assegurou que me removeria. Eu quis saber sobre o enterro, mas ele desconversou supondo que eu não soubesse ainda, mas eu sabia desde o começo que todos haviam morrido.


Tiveram pouco tempo pra ficar comigo e precisaram sair, foram embora e o Paulinho seguiu pra Guarapari para o enterro, junto com o Marcos que já estava lá, enquanto o Rodney corria pra me transferir pra um outro hospital. Eu, totalmente fora de tempo e horário, não soube que aquele dia seria o enterro... dia 3/11... dia do aniversário da minha mãe!


Como eu já contei, eu planejei fazer um bolinho pra ela, planejei comprar um presente, planejei reunir a família pra comemorarmos, planejei abraçá-la forte, olhar nos seus olhos e dizer que a amava muito, planejei cantar parabéns e vê-la ficar sem graça; minha mãe odiava olofotes... mas meus planos nunca se cumpririam. No dia do seu aniversário, ela estava sendo velada numa igreja com meu pai, minha tia e meu primo... quatro caixões, uma multidão de gente, muita dor e um enterro inesquecível...


Ah! Muitas noites eu acordei e chorei inconsolavelmente, muitas vezes eu disse pra Deus: "eu daria tudo para dar o último abraço na minha mãe", e eu daria mesmo! Muitas vezes eu lamentei porque, embora eu amasse meus pais e eles soubessem bem disso, naquela última viagem eu poderia ter simplesmente me doado mais, abraçado mais, amado mais... eu estava tão certa que tudo ocorreria como o planejado; doce ilusão, as coisas não são como planejamos, não somos donos das situações, nem de coisa nenhuma. Desde então, nunca mais eu esperei "a hora certa" pra dizer que amo alguém, nunca mais eu contive minha vontade de abraçar, nunca mais eu abracei indiferentemente, nunca mais eu deixei de olhar nos olhos e dizer: "Eu amo você".


Conto isso exatamente pra que você faça diferente. Eu errei, procuro não cometer mais o mesmo erro, você não precisa errar.

Deixa eu te dizer uma coisa: O dia que você tem pra Amar alguém é HOJE. Quem lhe garante que amanhã tudo será como foi hoje?

Quem lhe assegura que amanhã você ainda estará vivo? Quem lhe disse que você tem o tempo que você julga ter?

Não jogue oportunidades fora.

Ame e ame com intensidade,

Se desfaça das mágoas velhas e das novas também,

Decida dar novos rumos a sua vida,

Perdõe enquanto você tem chance de refazer seus laços,

Olhe nos olhos com paixão,

Leve à sério apenas ao Senhor e Seu reino, pra quê uma vida frenética, desesperada, sem tempo pra ninguém? Tudo fica nessa terra, e o que realmente importa são as marcas que você deixou nos corações daqueles que estão ao seu lado... no quanto você amou a Deus e ao seu próximo, o resto é "balela" como diria minha mãezinha!


"Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o bronze que soa, ou como o címbalo que retine.

Ainda que eu tenha o dom de profetizar e conhecer todos os mistérios e toda a ciência, ainda que eu tenha tamanha fé ao ponto de transportar montes, se não tiver amor, nada serei.

E ainda que eu distribua todos os meus bens entre os pobres, e ainda que entregue meu próprio corpo para ser queimado, se não tiver amor, nada disso me aproveitará!" I Coríntios 13: 1-3



Um tempo atrás, fui num enterro aqui em Recife, e enquanto seguíamos o cortejo para o enterro, passamos por uma sala aberta no cemitério e eu vi um senhor já de uns 70 anos sendo velado. O que me chocou é que havia apenas uma jovem senhora velando aquele homem e a expressão dela era mais de alguém entediada do que realmente sofrida. Não pude mais esquecer esse episódio. Como alguém morre e ninguém vai no enterro? Quem era aquele homem pra estar tão só no seu sepultamento? Que tipo de lembranças as pessoas tem dele, se é que se lembram dele?

Viveu tanto, e se não estou enganada, viveu mal... porque não amou e não foi amado...


Ame e ame enquanto é tempo, e o tempo se chama HOJE!!!


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Está pago por mim e por você 


Enquanto acontecia o enterro, meu marido pleiteava a minha causa...
Eu estava num hospital público, mas tinha convênio há um ano (nunca antes, em toda a minha vida, mas Deus sabe todas as coisas...) e o Rodney queria me remover pra São Paulo, onde tudo ficaria mais fácil em todos os sentidos.
Falando com um dos diretores do hospital, ele foi muito incisivo quanto a impossibilidade de qualquer mudança, por mais sutil que ela fosse, quanto mais para São Paulo. Disse também que ele deveria se dar por contente por ter me encontrado viva, por ter tido a chance de se despedir de mim, mas que não havia nada a ser feito, tudo se resolveria em questão de horas...


A essa altura do campeonato, alguns jornais haviam noticiado o acidente, além do que tudo se espalhara muito depressa e muitos santos de Deus começaram a clamar. "Muito pode por sua eficácia a súplica do justo." Tiago 5:16. Enquanto homens e mulheres em sua simplicidade oravam, Deus agia!
Quantas vezes somos incapazes de fazer qualquer coisa em favor de alguém, ou quem sabe de nós mesmos, quantas vezes somos incompetentes em tantas situações e não sabemos como agir, nem que fim vai ter nosso dilema... ah querido, você pode fechar os seus olhos... talvez você esteja tão conturbado, tão angustiado, tão envolvido por uma situação de dor que nem consiga falar, nem saiba o que dizer... eu tenho uma boa notícia: nada é preciso ser dito!
Quem foi que disse que oração é falar? Quem foi que disse que pra falar com Deus sejam necessárias palavras? Apenas apresente-se...
Apenas entre em sua doce presença em silêncio reverente...
Apenas deixe que Ele te envolva...
Apenas derrame suas lágrimas sobre o seu colo...
Ele já sabe de tudo, sabe quando tudo dizemos quando não dizemos nada,
e sabe quando não dizemos nada, quando tudo dizemos...
Enquanto pessoas oravam na terra, Deus agia nos céus!

O Rodney era o instrumento do Pai, (continua sendo assim) e ele não desistia, como foi aconselhado a fazer (mesmo que nas melhores das intenções). Depois de muito insistir e descartar algumas possibilidades, ele teve uma luz no fim do túnel: Acordaram que ele assinaria um termo se responsabilizando pela minha vida, (segundo os médicos, eu morreria durante o transporte) locaria um jatinho de UTI e custearia os médicos necessários. Inicia-se uma nova batalha! Por onde começar? Sempre que me lembro desse processo, lembro de 2 Crônicas 16:9 "Porque quanto ao Senhor, seus olhos passam por toda a terra, para mostrar-se forte para com aqueles cujo coração é totalmente Dele." Quando não há mais o que fazer, há um Deus que seu nome é Deus do Impossível! Aleluia!


Imagine você o que significava locar um jatinho de UTI, nós éramos recém-casados, não tínhamos bem algum, senão um carro financiado em 259 vezes sem juros, rsrsrs.

Amigos, parentes, muita gente estava pronta pra tudo, e juntos com o Rodney buscavam as soluções. O preço inicial do Jatinho era de mais de R$ 36.000,00- impossível! Mas deixa eu te dizer de novo: os céus se movem a nosso favor! No final da negociação foi fechado por R$ 6.000,00!!!!!!!!!!!!!!!!! Bendito seja o Senhor! Quer mais? Nós nunca pagamos um centavo, porque Aquele que É para sempre, dispôs o coração de alguém ou alguns para dizer: "Está pago!"



..."Está pago!" Isso lhe soa familiar? Nossa dívida é impagável... e pior, dela depende nossa vida, nossa eternidade... vamos morrer se ela não for paga! E por mais que a gente se esforce, trabalhe, se flagele, viva uma vida de punição... ainda assim não poderemos nos salvar por conta própria. O Pai sabia, mas o Pai amava... Ele amou tanto que enviou Jesus! Se nós fôssemos capazes de pagar a dívida, Jesus não teria morrido em nosso lugar! Se nós fôssemos capazes de viver, Jesus não teria ressuscitado a nosso favor! O que é preciso fazer? Nada! Ele já fez tudo.
Apenas receber o presente, só isso, simples assim! Na cruz do Calvário, Jesus bradou: "ESTÁ CONSUMADO!" João 19:30, e era exatamente isso que Ele queria dizer: está pago!



Imagine se eu morrendo, num quadro de gravidade como era o meu, tivesse dito ao Rodney: "Não, não vou não, eu vou com minhas próprias pernas." Eu não conseguia nem mover um dedo, quanto mais sair andando, quanto mais ir a pé de Campos de Goitacazes à São Paulo. Morreria provavelmente sem nem ter saído da UTI. Inconcebível né? Inadmissível certo? Pois é, mas muitos, muitos estão fazendo exatamente isso, morrendo porque não querem receber o presente que lhes foi dado: Jesus! Eu não estou falando de religião, igreja, hábitos que você pensa ou associa que precisa mudar pra aceitar o seu presente... esqueça se um dia te disseram assim. Apenas diga a Ele: "Jesus, minha dívida é impagável, e eu o meu espírito está entre a vida e a morte, se eu conseguisse me salvar por conta própria, o Senhor não teria vindo morrer em meu lugar, pra me fazer ressuscitar em vida contigo! Eu aceito Jesus a tua salvação, o teu presente, a tua vida em minha vida! Em nome de Jesus, amém!"



Quem pagou minha dívida com o jatinho, nunca se pronunciou ou voltou pra cobrar, foi um anjo de Deus na minha vida que, quando fez, fez por amor sem reservas, e era apenas um humano... Jesus nunca cobrará sua dívida, nunca te pedirá pra provar pra Ele ou para as pessoas coisa nenhuma... APENAS ACEITE O AMOR DELE POR VOCÊ!
"Porque Deus amou o mundo, tanto, tanto, tanto, que enviou seu único e precioso filho, para que todo aquele (qualquer um, um qualquer), que Nele crer e receber seu presente, não morra, mas tenha a Vida Eterna! Romanos 3:16


(Próxima postagem: eu e você no jatinho!)

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Quando o fio de luz quer apagar 



Muito bem, negociação concluída, médicos a postos, numa manhã quente o jatinho pousa no hospital pra minha remoção. É porém, preciso lembrar, que nenhuma batalha feroz se ganha com facilidade, mesmo quando o Senhor é por nós... teremos aflições! E todas elas são permitidas por Ele pra nos fazer crescer. A hemorragia no meu intestino ainda era muito severa, e a médica responsável pelo plantão daquele dia impediu minha liberação.

O Rodney se angustiou, o pessoal do jatinho começava a fazer pressão porque o tempo passava e eles não tinham muito tempo. Se fossem embora, tudo estava perdido, inclusive o dinheiro e seria necessário recomeçar do zero. Nenhuma "carta na manga", nada a ser feito, a médica (movida pelo bom senso) estava irredutível, tudo o que os médicos podiam fazer já tinham feito, estava além da medicina...

... mas quem é Deus senão o nosso Deus?
Quem é este que chama as estrelas pelo nome e todas elas se apresentam, sem que nenhuma delas venha a faltar? (Isaías 40:26)

Quem é este que até os ventos e o mar lhe obedecem? (Mateus 8: 23-27)

Quem é este que diz: " os cabelos da vossa cabeça estão contados"? (Mateus 10:30)

Quem é este que Agindo, ninguém pode impedir? (Isaías 43:13)

Ah Ele não mudou! Ele ainda é o mesmo! Ele é o mesmo ontem, hoje, e o será para sempre!

Jesus ainda opera milagres, todos os dias...

Em questão de muito pouco tempo (1 hora talvez), a hemorragia do meu intestino estancou satisfatoriamente, sem nenhum motivo lógico, apenas foi diminuindo até o ponto da médica não ter mais argumentos e liberar minha remoção. (Obrigado Senhor!) Eu soube desses detalhes meses depois pelo capelão do hospital, de quem me tornei amiga e com quem falei algumas vezes pelo telefone. (Deixa eu te dizer baixinho: "Quando tudo está se esvaindo como uma hemorragia incontrolável, há um Deus trabalhando em silêncio por você!)

Tudo isso, obviamente eu soube bem depois, não se esqueça que eu estava morrendo, e pra quem está morrendo ninguém dá notícia alguma!


Quando vi, parecia filme, entraram na UTI, uns 4 homens uniformizados, começaram a verificar tudo, mexer em mim, fazer preparativos numa agilidade incrível sem dizer palavra. Resolvi quebrar o silêncio, uma vez que o que eu mais queria era ser removida: "São vocês que vão me tirar daqui?"

"É sim." E continuaram a fazer os procedimentos sem me dar muita bola, eu querendo "bater bapo", achando que minha vida estava a salvo, e eles querendo que eu calasse a boca pra que pudessem exatamente salvar a minha vida! Levou um tempo pra me colocarem na maca com os aparelhos, tudo era muito minucioso e eles estavam concentradíssimos. Tratei de fechar a boca e não demonstrar muita dor cada vez que tocavam em mim. Quando finalmente tudo estava pronto, na saída da UTI, um monte de gente se aglomerou pra se despedir, médicos, enfermeiras, estagiários... eu via apenas rostos, alguns com lágrimas que diziam tudo que as palavras não poderiam dizer, e fiquei surpresa, eu nem sabia que havia tanta gente assim que sabia do que havia acontecido e que agora tinha compaixão.

Lembro que já do lado de fora, antes de entrar no jatinho, vi muito rapidamente, meu irmão mais velho que ainda não tinha visto, e ele apenas conseguiu dizer: "Tudo vai ficar bem...", vi também meu primo Edmilson que esboçou palavras de consolação e me colocaram no Jatinho. O Rodney foi comigo e eu ouvi quando os médicos disseram pra ele: "Você precisa conversar com ela, ela não pode dormir". (É impressionante como mulher até morrendo escuta o que os outros falam), mas durante todo o trajeto, ele olhava pra mim e não dizia coisa alguma e eu não entendia o porquê. Seus olhos estavam estupefados e ele tentava disfarçar mas não podia. Bem depois eu soube (pra variar), que durante o percurso, ele fora avisado sobre mais um fator negativo que era a ação da gravidade. Não deu outra: eu fui inchando muito e cada vez mais... ele conta que me via inchando a olho nu, e começou a desesperar-se porque achava que eu ia morrer na frente dele. Detalhe: eu só tinha ao alcance dos olhos a cabeça dele, os médicos estavam em volta monitorando tudo num silêncio gritante.

Quando pousamos no aeroporto de Congonhas em São Paulo, a ambulância já estava à postos. Diante do quadro que ficara agora mais grave do que já estava, minha vida literalmente por um fio, os médicos mandaram o Rodney entrar na ambulância para poupá-lo mesmo se o pior acontecesse. Quando os médicos foram retirar a maca do jatinho, eu tinha inchado tanto que não passava mais pela porta do jatinho que havia entrado. Meu Deus que desespero! Vi aqueles homens perderem a "classe". Tentaram de algumas formas e nada. Resolveram que só havia uma coisa a ser feita, pior não podia ficar: "Ou vamos assisti-la morrer, ou vamos puxar essa maca". E foi o que fizeram. Quatro médicos grandões, viraram um pouquinho a maca, com cuidado por causa dos aparelhos e sem dó nem piedade (ou quem sabe com muita compaixão, as vezes pra salvar alguém a ação tem que ir além da piedade), eles puxaram com toda força aquela maca: que doooooooooooooooorrrrrrrrrrrrrrrr!!!!!!!!!!!! Eu ainda gritei! E ainda pensei: "Senhor, o que me falta passar?"

Me colocaram na ambulância e me levaram para o hospital Evaldo Foz em São Paulo. Me lembro com exatidão do som da sirene... um filme me passa na mente... Meu marido já não me viu mais, fui direto para UTI, recordo-me apenas de um monte de plaquinhas passando numa velocidade incrível na minha cabeça, um monte de corredores, e eu entregue nas mãos de pessoas que não diziam nada, apenas ponderando: "Senhor, será que vou um dia voltar pra casa?"

"DA MAIS PROFUNDA COVA, SENHOR, INVOQUEI O TEU NOME.

OUVISTE A MINHA VOZ; NÃO ESCONDAS O TEU OUVIDO AOS

MEUS LAMENTOS, AO MEU CLAMOR.

DE MIM TE APROXIMASTE NO DIA EM QUE TE INVOQUEI;

DISSESTE: NÃO TEMAS!

PLEITEASTE, SENHOR, A CAUSA DA MINHA ALMA,

REMISTE A MINHA VIDA! "(Lamentações 3:55-58)