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Se posso ir além, é lá que quero chegar!


Logo depois que a Victória desmamou, começamos os preparativos para mais uma cirurgia. Enfim, eu colocaria tela no lado esquerdo do abdômem pra segurar os órgãos "soltos" pela ausência de musculatura. (Fotos na postagem "os meus olhos vêem o que há de pior... ")

Eu anelava por essa cirurgia há muito tempo, o que me trouxe muita tranquilidade para fazê-la. Foi um presente de Deus voltar a olhar no espelho e, mesmo toda 'costurada', ver meu intestino no lugar de onde ele nunca devia ter saído...rs


Alguns meses depois, fiz outra cirurgia, na mão esquerda, alongamento de dois dedos atrofiados, o que foi também um alívio grande, mesmo sem sensibilidade, facilitava muito minha vida.


As águas estavam agora mais tranquilas, e tudo voltava a sua normalidade como tinha que ser.

Eu trabalhava normalmente, Victória crescia com saúde, Rodney mais tranquilo... por pouco tempo... Nesse ínterim, descobrimos que minha sogra estava com câncer e não foi um processo fácil, foi um câncer agressivo o suficiente para ceifar a vida dela em poucos meses.


Eu nem sei definir com exatidão, mas a soma de tudo isso, provocou além de muitas experiências, muita reflexão, valores iam sendo alterados mesmo sem percepção imediata... não há professora melhor do que a dor. Como ela ensina!


De repente havia dentro de mim uma inquietação... pensar tanto na vida, em suas razões e, concentrando-me em encontrar respostas, eu me vi em busca de algo maior, de algo mais que ainda não havia experimentado.


Num domingo rotineiro, fui à Betesda, igreja do meu amado e profundamente lúcido pastor Ricardo Gondim. Ele falava sobre Josué 1, e os desafios que esse homem enfrentou e venceu porque eram em primeiro lugar, desafios que o próprio Deus tinha lhe dado.


Me lembro de muitas coisas valiosíssimas que ele disse, mas uma delas nunca mais sairia do meu coração. Ele dizia com entusiasmo e paixão: "Você precisa de uma causa! Uma causa maior do que você mesmo... uma causa tão grande, que se Deus não for com você, você estará fadado ao fracasso!" Como se o golpe não tivesse sido suficiente, ele prosseguia: "... porque quando um homem tem uma causa, ele se torna forte, mas quando uma causa possui esse homem, ele se torna invencível!"


Aquilo caiu dentro de mim despertando uma ânsia impetuosa que nunca mais se pacificaria. Era como se aquelas palavras reunissem respostas e sentido para as inquietações que eu há tempo estava gerando sem sequer perceber.

Não era nenhuma insatisfação provocada por situações, pessoas ou realidades que me cercavam, era uma angústia borbulhante do lado de dentro por sentido e significado agora que as águas estavam na medida do possível, tranquilas do lado de fora.


Eu há quase uma década cultivo o hábito de escrever num caderno as coisas mais profundas e inquietantes do meu coração... mas não escrevo para o caderno, o que o desqualifica como "meu diário", mas escrevo para Aba, para aquEle que sabe tudo a meu respeito, como eu estou mui distante de saber. Escrevo porque sou muito melhor escrevendo do que falando. Escrevo porque não quero esquecer e nem destruir junto com o tempo, os meus altares pessoais que são só meu e Dele. Escrevo com a sensação e porque não dizer a certeza, de que Ele está bem ali, passando os olhos por cada frase e sondando o que eu jamais seria capaz de descrever com todas as palavras emprestadas por um rico escritor...


No dia 26 de maio de 2002, sei o preciso dia, porque fui consultar meu primeiro de outros cadernos, já amarelado e escrito de cabo a rabo... peguei uma caneta persuadida a transpor a intensidade do meu coração. Eu estava determinada a não escrever por escrever, muito menos escrever pra linhas intermináveis e silenciosas de um caderno com a capa verde. Eu escreveria pra Ele e sem pudores religiosos, nem palavras pensadas... eu diria, eu derramaria meu coração diante dEle sem reservas.


E foi o que fiz... comecei assim: "Quero escrever para um Deus verdadeiro no meu coração principalmente. Quero buscar nessa noite um Deus que eu sei que não é surdo, não tem pés de barro e olhos de vidro; mas que eu por vezes, (inconscientemente) o torno assim..." e comecei a expressar toda a inquietação do meu coração, para aquilo que eu nem sabia o nome, mas que latejava dentro de mim. Eu queria sentido, eu queria mudanças, eu queria mais do que ser grata todos os dias 2/11 por ter sobrevivido... eu queria experiências com Deus, novas e que não ficassem armazenadas na vitrine do passado.


Nossa rotina, nossa vidinha pacífica esperando os dias passarem e os natais chegarem me fazia ter arrepios, a nostalgia nunca foi grata persona pra mim.


Enquanto Victória brincava e descobria ali do meu lado a vida, eu queria estar mais perto do Pai e descobrir ao lado Dele a vida, isso me faria ir direto ao alvo, ao invés de buscar em tantas coisas aquilo que só Nele eu podia encontrar.


E eu pedi uma reviravolta de 360° sem medo de ser feliz. Em três páginas escritas energicamente, não disse uma palavra sobre o que eu gostaria que Ele fizesse, nem como fizesse, até porque eu não tinha idéia... apenas implorei que fizesse e sabia que Ele podia fazer. Fechei o caderno aliviada por ter dito tudo e não senti nenhum tipo de arrepio na espinha, nem voz angelical, nem coisa nenhuma.


Ele porém leu cada palavra e atendeu o meu clamor.


No começo de Junho, estávamos eu e o Rodney na Feira Hospitalar que acontece em São Paulo, trabalhando os dois na Calgimed (empresa de equipamentos cirúrgicos), quando não sei como e nem o porquê, surge o assunto de quem sabe, abrirmos uma filial no Nordeste. Sabe aqueles papos improváveis que só fazem bem ao ego? Era um desses. Aí começamos a sonhar... Fortaleza. Era bom demais, era novo demais, era longe demais e impossível demais.


Numa velocidade mais alarmante do que eu podia acompanhar, a coisa foi tomando forma e proporção de maneira que, eu queria ter podido pensar com mais sobriedade sobre o assunto. Nada feito. Em algum momento das decisões, decidimos ou decidiram por nós que a cidade era Recife e que tinha que ser logo.


Agora estava sério a coisa e eu começava a ter nós no estômago por deixar meus dois irmãos sozinhos depois de apenas dois anos do acidente. Havíamos nos protegido e aproximado muito nesse tempo. Eles moravam numa casa construída pelo meu pai atrás de mim e eu tinha assumido a vez de "galinha" da família abrindo as asas e trazendo-os sempre pra perto de mim.


Sem que eu pudesse planejar ou pensar muito, numa manhã confusa, o caminhão de mudanças chega no meu portão e descem quatro homens muito motivados a trabalhar. "Mas calma aí, eu nem separei ainda tudo, muitas coisas vão ficar moço".

"A senhora diz o que não vai, o que vai vamos encaixotando e colocando nome".

Mas como eu estaria em quatro cômodos da casa ao mesmo tempo? Eu nem fiz a pergunta e ele nem deu a resposta. Simplesmente aqueles invasores se espalharam pela casa e começaram a enfiar tudo nas caixas. Eu? que nem louca de um lado pro outro pedindo pra eles por favor não encaixotarem minha filha sem colocar a etiqueta nela. kkkkk


Não estou exagerando, foi assim mesmo, eu não pude me despedir de um monte de gente, foi uma loucura. Minha ficha caiu quando, um dia antes, minha cunhada reuniu os nossos amigos e fomos para uma churrascaria fazer nossa despedida. Foi muita gente e foi uma noite única. Meu coração estava divididíssimo entre a euforia de uma nova vida e a tristeza de deixar pra trás pessoas insubstituíveis na minha vida.


Choro e riso. Dor e Alegria. Medo e sonhos.

Jamais vou esquecer da sensação de dor sangrando no peito enquanto me despedia dos meus irmãos já no corredor da sala de embarque. Senti que estava morrendo de novo, morrendo mais um pouquinho... o Marcos não se conteve e deu lugar ao pranto, eu os abracei forte e virei as costas profundamente marcada por mais uma despedida.


Pisei pela primeira vez na cidade de Recife, no dia 17 de Julho de 2002. Assim, sem nem saber onde moraria e o que seria da minha vida. Mas eu tinha dito de olhos fechados, no final de semana anterior, numa noite fresca de céu estrelado: "eu sei que é o Senhor levando a mim e minha família e eu vou pra qualquer lugar, desde que seja contigo!"


Eu não tinha nem idéia do que viria, mas hoje eu digo, eu viria de novo.

Eu não tinha idéia do que passaria, mas eu passaria de novo.


Eu não sei do que você precisa e desconheço o anelo mais profundo da sua alma,

mas eu te desafio: experimente ouvir os anseios do seu coração e depositá-los nas mãos certas, capazes de reconstruir a sua história, você não vai se arrepender. Deus também tem sede de mudanças na sua vida, mas está esperando o seu aval. Enquanto for do seu jeito, será medíocre... quando for do jeito dEle, nem sempre será fácil, mas haverá um sentido verdadeiro!


"Como suspira a corça pelas correntes das águas, assim, por ti, ó Deus suspira a minha alma.
A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo: quando irei e me verei perante a face de Deus?" Salmo 42: 1,2


SE VOCÊ NÃO TEM UMA CAUSA PELA QUAL MORRER, NÃO VALE A PENA VIVER!

2 comentários:

Rose

Senhor, se posso ir além, é lá que quero chegar" Como foi importante ler seu blog, justamente hoje...

GLAUCIA

PARABÉNS!

SUAS ATIDUDES DIANTE DE DEUS SÃO MARCANTES POIS VC FOI DETERMINADA EM QUERER APROXIMIDADE COM DEUS E Ñ DEIAR O PASSADO MARCA E QUANDO VEJO DEUS SENDO FIEL E FAZENDO VC TE UMA VISÃO DE AGUIA BJS

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