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Meu braço esquerdo... um recado do Pai


A vida precisa seguir adiante, o mundo não pára, a fila anda e é assim que tem que ser... o meu mundo estava completamente parado, mas o mundo das pessoas que estavam a minha volta precisava continuar girando, até para que meu mundinho agora limitado, pudesse ter sossego... meu marido e meus irmãos que tanto já tinham parado tudo por mim, agora precisam voltar ao trabalho definitivamente e logo eu me vi só com um anjinho em forma de gente que cuidava da minha casa há pouco tempo e que agora cuidaria de mim literalmente por muitos dias o dia todo! Cleide era o nome dela, e como ela fazia tudo por mim com amor verdadeiro, sempre com um sorriso no rosto e muita paciência! Imagine que pra qualquer coisa eu precisava de ajuda, até pra levantar, sentar, comer, tomar banho, escovar os dentes... tudo. Mas como sempre foi e sempre será,

"Tu me cercas por trás e por diante e sobre mim pões a tua mão!" (Salmo 139:5)

Eu não tinha escolha e embora odiasse ser totalmente dependente, isso era um fato e eu precisava de boa vontade me submeter aos cuidados de alguém. Meus dois braços estavam paralisados - no braço direito havia agora um pino no cotovelo que me impedia de estendê-lo - minha flexibilidade era mínima o que me impedia muito de usar a mão direita; e o braço esquerdo estava ainda muito inchado, amparado por uma tipóia e sem muitos movimentos que eu imaginava que fossem voltar com o tempo. Isso obviamente me neutralizava muito, além das dores no corpo, cirurgias e o lado esquerdo do abdômen ainda "aberto", o que viria a cicatrizar depois de quase um mês... nenhuma posição era boa e eu só podia deitar de um jeito na cama, não dava pra virar nem de um lado nem do outro, o dreno de pulmão já havia sido retirado mas ainda doía muito, o que me obrigou a dormir sem mexer na cama por uns quarenta dias.

Tudo era agora uma questão de superação e eu precisava encarar minha realidade e aprender a viver novamente. Tudo que um dia fora tão natural, agora era um monstruoso desafio... mas o Senhor tinha me feito uma promessa ainda na UTI com o Salmo 131 lembra-se? Ele estava agora a cumprindo e eu agora O reconhecia como uma boa mãe que acalenta o seu filho desmamado nos braços! Eu escutava "Rompendo em fé" mil vezes por dia e essa música me alimentou por muito tempo. Me lembro com nitidez profunda da minha súplica em soluços dentro de um banheiro pedindo que o Senhor me ajudasse a ir ao banheiro sem precisar de ajuda que não fosse a Dele... e depois de quase meia hora venci o primeiro desafio e abri a porta com lágrimas e um sorriso, e muita dor num bendito pino no braço! rsrs

Comer pelas mãos de outra pessoa era também outra coisa que muito me constrangia, a cada refeição alguém me alimentava e eu ficava "passada", bem como quem me dava comida na boca que olhava pra o prato e dizia: "o que vai ser agora, quer uma abobrinha?!" kkkkk

Eu me sentia uma perfeita imbecil comigo mesma e um dia, sentada na mesa decidi que comeria sozinha... com garfo e faca na mão eu agora sim era uma imbecil tentando comer e ouço o sussurro doce do Senhor, (disfarçada de mãe, rsrs) me dizendo: " Você não vai conseguir comer de garfo e faca... pegue uma colher." Comer de colher? " Pegue na ponta" e eu obedeci... e passo a passo fui reaprendendo a comer sozinha de colher na mão, braço retorcido e pescoço esticado... a cena era patética, mas em todas essas frivolidades, sem que eu percebesse de imediato, Deus estava me ensinando algo profundo que alteraria o curso da minha vida.

Eu estava nua diante do meu eu, das minhas incapacidades e diante da minha fragilidade. Podia me enxergar finalmente como sempre fora, mas jamais atentara: DEPENDENTE! TOTALMENTE DEPENDENTE! Charles Swindoll já dizia que ''... quanto maior a dor, tanto mais clara a visão!" E eu podia sentir na solidão dos meus dias e na minha incompetência com tudo, o quanto era vaso de barro! Quem a gente pensa que é? Será que somos senhores da nossa história como julgamos? Vamos aonde sozinhos? Saímos da cama na nossa força? kkkk pra mim e pra você! Veja o que diz o Salmista:

" Todos esperam de ti que lhes dês de comer a seu tempo.
Se lhes dás, eles o recolhem; se abres a mão, eles se fartam de bens.
Se ocultas o teu rosto, eles se perturbam; se lhes cortas a respiração, morrem e voltam ao seu pó.
Envias o teu Espírito, eles são criados, e assim renovas a face da terra!"
(Salmo 104: 27-30)

Dentro de mim tudo isso era conhecimento, agora Deus estava transformando em cerne. É impressionante como o ser humano tem a facilidade, a naturalidade de julgar-se deus, de considerar-se dono do próprio nariz, do próprio destino, da tragetória da vida. Muitas vezes amamos a Deus e o desejamos de fato, mas permanecemos no comando, no controle, brincando de sermos nossos deuses pessoais e confiando na nossa auto suficiência tão ínfima! Quanto desatino!!!

Não falo de você, falo de mim, e sabe? Muitas coisas preciosas, a maioria delas, a gente só aprende quando os ventos são contrários, infelizmente. Porque a dor tem a capacidade de definir prioridades e verdades antes desconhecidas...
Com o passar do tempo fui reaprendendo tudo lentamente. Era uma celebração cada conquista. Pentear o cabelo sozinha segurando na pontinha do pente era um esforço tremendo mas prazeroso, escovar os dentes sem ajuda... delícia! Tirar o telefone do gancho e levar ao ouvido? "que bom!" dizia a Cleide que parava o tempo todo de fazer o que estava fazendo pra atender o telefone!

Mas a mão esquerda não progredia em nada e quem cuidava dela era o meu amigo esquecido, Dr. Eid. Finalmente, numa consulta fiquei sabendo o que havia acontecido no meu braço esquerdo: Lesão de plexo. Na colisão, eu bati muito forte o pescoço e isso trouxe consequências irreparáveis na parte neurológica. O que significava que provavelmente não haveriam progressos em fisioterapias e demais tratamentos. "Mas, vamos tentar tudo que é possível" determinou Dr. Eid.
Iniciei intermináveis sessões de fisio e também hidroterapia...

Odiava os exercícios de levar uma pecinha pequena de um lado pra outro com os dedos que não mais faziam movimentos de "pinça" e que atestavam minha absoluta incompetência de apenas segurar um objeto com a mão esquerda. Eu não tinha mais o controle sobre meus dedos, ele não respondiam mais as minhas ordens, minha mão não mais virava de forma que ficasse espalmada, além do que se tornara dormente me impossibilitando de "contar" com ela.

Depois de muitas sessões sem nenhuma evolução, eu voltava pra casa irada, inconformada com a deficiência na minha mão que insistia em permanecer. Eu não aceitava a inabilidade do meu braço que era tão hábil há pouquíssimo tempo atrás... e no caminho, comecei a chorar e falar com Deus em silêncio, tomada pela revolta.

"O que custava o Senhor ter curado o meu braço também?"
"Me livraste da morte, curaste o meu corpo de coisas infinitamente mais sérias, porque me deixaste com uma mão adormecida, impotente?"
A ausência total de "resposta" por parte do meu braço, me fazia odiá-lo e me constranger cada vez mais.
Depois que "desabafei' todo o meu desvairo em lágrimas, no estacionamento de um shopping, calei imediatamente ao ouvir no meu espírito uma única frase:

"A minha graça te basta!" (2 Coríntios 12:9)

Apenas essa frase, vinda do coração de Deus me emudeceu e apazigou totalmente o meu coração. Nunca mais eu questionei, nunca mais busquei a cura do meu braço, nunca mais me revoltei com a deficiência que me acompanharia daí em diante...

Hoje, 9 anos depois, muito mais amadurecida com todo o processo do acidente, e enxergando com muito mais nitidez o que Deus fez em mim, sei exatamente a resposta da minhas questões revoltadas naquela tarde em São Paulo...

Hoje, eu olho para o meu braço que permanece incompetente, minha mão esquerda que insiste em ser dormente e agora, atrofiada e vejo nela um lembrete inesquecível, como se um recadinho do Pai tivesse sido impresso com letras de fogo na forma de deficiência:

NUNCA SE ESQUEÇA DE QUEM VOCÊ É -
frágil,
incompetente,
incapaz,
dependente,
pequenininha...

NUNCA SE ESQUEÇA DE QUEM EU SOU -
O Todo-Poderoso,
O que te sustenta,
O que te capacita,
O que te fortalece,
O que abre os caminhos e os fecha,
O que levanta e O que abaixa,
O que restaura e O que humilha,
O que dá a vida e O que a tira!

NUNCA SE ESQUEÇA FILHINHA!!!

Hoje, eu tenho sinceramente um carinho especial pelo meu braço imperfeito e dentro de mim, o recado do Pai está impregnado! Eu sei que A TUA GRAÇA REALMENTE, DEFINITIVAMENTE ME BASTA SENHOR!!!
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A caminho de casa...

Depois de uma longa, dolorosa, e profunda experiência, finalmente havia a perspectiva de voltar pra casa... faltava só a última cirurgia (colocar um pino no cotovelo direito) e depois, minha vida de volta!!!
Eu só queria ir pra casa... fui mais uma vez para o bloco cirúrgico como se estivesse indo pra uma festa, tamanha era minha ansiedade de sair do hospital! Só não foi uma festa quando acordei da cirurgia... meu amigoooooooooooooooo, cirurgia ortopédica dói muuuuuuuuuuuiiiiiiiiiiiiiiiiito! Os primeiros dois dias foram terríveis, somados a toda a fragilidade do meu corpo, eu mais parecia uma idosíssima com seus 100 anos de estrada!

Quase dei no médico (Dr. Eid, o cara), quando ele entra todo posudo no meu quarto dois dias depois e me manda coçar o nariz... o que significava que eu teria que dobrar o cotovelo! Eu me lembro de responder: "só se for pra coçar o seu", o que não me custaria dobrar o cotovelo... kkk... fiquei rindo da cara amarela dele e muitos meses depois, eu ainda estaria no seu consultório. Detalhe: toda vez que eu entrava, ele perguntava com cara de impressionado: "quem foi mesmo que morreu no seu acidente?" Ninguém merece! Depois da quarta vez eu já entrava dizendo: "Morreram meus pais, minha tia e meu primo, antes que o senhor pergunte..." e assim nos tornamos bons amigos! Toda vez ele também me dizia que eu comemorasse no dia do meu aniversário e no dia do acidente... levei ao pé da letra... vivo comemorando a Vida! (Não perca de vista a sugestão do Dr. Eid, ela vale pra você também! rs)

Mais uns dias e, finalmente, ALELUIA, nem acredito... estou de alta??? Enquanto os preparativos eram feitos pra minha liberação, (assinatura de papéis, receitas médicas, etc), eu "mordia a parede" e tinha vontade de jogar aquele calhamaço pela janela, só pra sair pela porta e descer o elevador!
Lembro de todos os detalhes, exceto a cor da camisola... rs

Tudo pronto, meu marido pega a cadeira de rodas que nos foi doada, o enfermeiro cuidadosamente me ajuda a sentar, meu cunhado Ranieri estava lá e nos ajuda com a "minha mudança", meu marido feliz faz uma oração de gratidão ao Pai ainda no quarto... e se não fosse minha incompetência de mexer qualquer membro, teria saído do quarto como criança balançando as pernas!!!

Era sábado...
Até hoje, amo o sábado...
Estava um lindo dia de sol e finalmente descemos o elevador e fomos para o carro...
Meu cunhado dirigia e eu não quis ir na frente, o Rodney então foi ao lado do irmão e eu fui atrás, nenhum dos dois notou (e nem podiam), mas eu estava exatamente no mesmo lugar do acidente a primeira vez que entro num carro de novo. Fazer essa "conexão", me fez chorar baixinho no banco de trás... mesmo que eu não quisesse, todo o contexto do acidente fluía da minha mente...
Era estranho andar pelas ruas de São Paulo, parecia que eu não mais pertencia aquele lugar...
Entramos em Interlagos e pertinho de casa, vi meu marido falar no celular que estava chegando e não imaginei coisa alguma.

Quando entramos na rua de casa, pude ver minha casa, que era de esquina e senti um impacto dentro do peito. Eu teria essa mesma visão, mas junto com minha família... há uns bons dias atrás... agora eles estavam enterrados, eu toda "remendada", com cicatrizes profundas no corpo e na alma! Disse isso silenciosamente pra Deus... "tudo era pra ser tão diferente Senhor!" ... E novamente as lágrimas me denunciavam!

"O que é aquilo?"
Havia uma faixa enorme, de ponta a ponta da minha casa que o Rodney e meus irmãos (Marcos e Paulinho) haviam colocado. Era uma expressão de gratidão a Deus pelo milagre de me trazer de volta e uma linda declaração de amor! Como se não bastasse, os dois estavam do lado de fora e quando reconheceram o carro, começaram a soltar fogos... parecia final de campeonato...

QUE MOMENTO LINDO! QUE ABRAÇO DO PAI!!!

Jamais esquecerei aquele sábado...
Me lembro da expressão de felicidade deles, os olhos radiantes...
me lembro de uma enfermeira querida da igreja me esperando em casa (ela queria me dar sopa e eu queria feijoada), fizemos acordo e eu comi um franguinho com legumes que ela me deu na boca...

Me lembro dos três patetas estarem de um lado pra outro da casa atrás de mim...
me lembro que eu mal podia sentar, e novamente eu repito: eu parecia uma velhinha de 100 anos, - mas sem os enfermeiros hábeis - agora tinha o adendo que eu parecia uma velhinha de 100 anos que acabara de cair da escada...rsrs

Eu não era capaz de fazer coisa alguma sozinha, nada mesmo...
não tinha "serventia" nenhuma...
estava imprestável e cheia de marcas, sequelas pelo corpo todo...
Mas ainda assim eles me amavam!
Ainda assim eles me queriam!
Ainda assim eles festejavam a minha chegada,
Ninguém colocou em xeque minha incapacidade,
Ninguém pôs em dúvida o meu mérito...
Bastava que eu estivesse em casa de novo!
Permita-me te dizer:
Ninguém chegará na presença do Pai intacto...
Ninguém passa imune pela vida...
Ninguém é auto suficiente...
No decorrer da nossa jornada, vamos acumulando cicatrizes, marcas, sequelas...
Mas sabe o que importa para o Pai?

QUE VOCÊ CHEGUE EM CASA!!!

Mesmo marcado, mesmo sofrido, mesmo sequelado...
E isso não fará diferença...
Ninguém questionará suas cicatrizes...
Haverá uma grande festa e muita celebração pela sua chegada!
Porque para Abba, basta a presença do filho!
Do filho amado, desejado, esperado ansiosamente!!!

Por isso meu querido,
nunca se esqueça que você está a caminho de casa,
e mesmo cansado, flagelado, apenas prossiga, apenas resista, apenas continue caminhando nas suas forças, confiando em Jesus, dependendo Dele, sua força!

"... E LEVANTANDO-SE, FOI PARA SEU PAI. VINHA ELE AINDA DE LONGE, QUANDO SEU PAI O AVISTOU E, COMPADECIDO DELE, CORRENDO, O ABRAÇOU E BEIJOU!..."
(Lucas 15:20)

Você consegue vislumbrar o Todo- Poderoso vindo ao seu encontro... correndo, te abraçando e, permanecendo aconchegado a você? Consegue vê-lo te beijando e olhando nos seus olhos... e dizendo: "Filho que saudade de você! Venha, você agora está em CASA!!!" ... Abba é assim, Ele é AMOR!

Lembre-se: Não importam as marcas, importa apenas você!

Lembre-se: Você ainda não está em casa, está a caminho dela, portanto...

CONTINUE CAMINHANDO, ou como diz a Dolly do desenho "Procurando o Nemo": "CONTINUE A NADAR, CONTINUE A NADAR..."