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"Achas mesmo que passaste a noite sozinha?"




Se você ainda está comigo, estamos na UTI, os dias são intermináveis, as previsões são as piores possíveis, com um agravante: eu passaria pelo menos 3 meses no hospital e jamais teria filhos, porque meu útero fora profundamente lesado... meu marido não me disse nada assim que soube. Como eu reagiria a essas informações diante da ansiedade pra sair da UTI... e diante do fato que não tínhamos filhos?!

O médico que assumiu o meu caso, Dr. Fernando Cabral, era um homem muito ousado e querido também. Me lembro das visitas que ele me fazia, queria saber tudo, o que doía, aonde incomodava mais, e prestava atenção em mim como se fosse a única paciente dele. Recordo-me bem do seu cavanhaque perfeitamente desenhado e do seu perfume francês de muito bom gosto que ficava sempre que ele saía da sala. Ele sempre fazia carinho em mim e me transmitia otimismo, sem me fazer perceber a gravidade de tudo... quando na verdade, depois ele mesmo me disse que estava muito preocupado o tempo todo, sem saber se eu sobreviveria!

Num belo dia, ele decidiu que ia começar a remover alguns aparelhos progressivamente pra ver se eu reagiria. Soubemos depois que isso gerou um certo alvoroço entre os médicos da equipe, porque temiam que o quadro clínico agravasse... mas ele fez valer a sua decisão e numa noite, pediu que a enfermeira tirasse a sonda que ia até o estômago. Eu tinha acabado de tomar banho. Todos os banhos na UTI eram por volta das 20:00 e obviamente na cama. Vinham sempre duas enfermeiras ou uma enfermeira e um enfermeiro (em tudo na vida a gente aprende, eu estava tão entregue, que nem ousava fazer careta, no fundo nós não mandamos em coisa alguma, nem em nós mesmos), que jogavam literalmente água no corpo, nos cabelos, passavam sabonete líquido com muito cuidado, lavavam os cabelos (não posso até hoje sentir o cheiro do shampoo elseve, que eu usava na época... se fechar os olhos, me vejo na UTI, credo!!!) e depois enxaguavam sem medo de molhar tudo em volta. Era um banho mesmo, o problema começava pra enxugar... mexe daqui, vira um pouquinho ali, e eu, fazia o que? Começava a chorar de dor... (hoje eu dou risada, mas só hoje coleguinha...) Depois, era a hora de trocar os lençóis, e aí o bicho pegava mesmo. Primeiro eles me viravam com cuidado de um lado pra remover a metade do lençol molhado e começar a colocar o lençol seco, depois, viravam-me do lado oposto pra terminar de tirar o lençol molhado e terminar de colocar o lençol seco... você não tem noção do que era isso! Quando me viravam pro lado esquerdo eu morria porque era o lado que o cinto tinha "comido" (desculpe, mas não encontro palavra melhor, rsrs) meu abdômem; e quando me viravam do lado direito, terminavam de me matar porque eu ficava em cima do dreno de pulmão, cuja dor, eu não consigo descrever, e nem quero, porque senão começo a senti-la de novo!

Contei tudo isso (eu tinha que desabafar esse trauma, rsrs), pra te dizer que depois de toda essa saga, a enfermeira então, obediente a ordem do médico, me avisa que é hora de se livrar do primeira sonda. Já fazia alguns dias que eu estava com aquele túnel na boca... amei a idéia de removê-lo. Odiei pensar no processo. Foi terrível. Mais uma vez, sem dó nem piedade, aquela enfermeira começa a puxar a sonda que sai rasgando tudo por dentro, visto que está fazendo o caminho contrário... não dava nem pra gritar, a sonda estava saindo pela bocaaaaa!!!


E era sonda que não acabava mais, parecia que ia até meu pé, não até o estômago... que sensação horrorosa! Quando a infeliz saiu toda, o corpo sentiu imediatamente. Já fazia dias que eu não comia nem bebia nada. Me veio de imediato uma ânsia de vômito incontrolável. Nem deu tempo de avisar a enfermeira, apenas virei o rosto, não dava pra mexer o corpo, e vomitei muito. Não sei como havia tanto líquido verde escuro dentro de mim, mas havia, e eu vomitava e sentia dor na barriga que estava "costurada" de alto a baixo... a enfermeira assim que pode trouxe toalhas e tentou não me sujar muito, mas não adiantou muita coisa: outro banho!


A boa notícia foi, que conforme Dr. Fernando tinha previsto, meu corpo começou realmente a reagir, mas ele era muito cauteloso em dar esperanças. Num outro belo dia, cheio de suas ousadias, ele sugeriu que talvez me colocaria no quarto com toda a estrutura de UTI. Disse ao meu marido que seria um estímulo pra mim estar com gente, com as pessoas que eu amava, e isso provavelmente me faria reagir mais rápido.Mais uma vez, voto contrário da equipe médica. Não seria precipitação? Ou seria o criador dos céus e da terra dando a última palavra? Conduzindo as coisas como lhe apraz?


"O coração do homem pode fazer planos, mas a resposta certa, vem dos lábios do Senhor!" (Provérbios 16:1)

Sem previsões ao meu coração, sem notícias muito animadoras à família, num desses dias de novembro de 99, o Rodney me visitou os dois horários como sempre... eu lhe perguntei mil vezes tudo de novo como sempre, ele me consolou tudo de novo como sempre, foi embora como sempre e eu fiquei desolada como sempre. Nada animava o meu coração... quando você está vivendo o "vale da sombra da morte", em plena noite escura e fria, parece que o sol nunca vai nascer outra vez... parece que o coração nunca mais vai bater descompassado de alegria, parece que a vida nunca mais vai ter sabor de chocolate nas mãos de uma criança...

Lá estava eu, sentindo-me desconsolada, desamparada, totalmente só e sem esperança. Cada vez que dormia um pouquinho sonhava com meu corpo se desligando da terra, era terrível... Numa dessas noites, quando o plantão foi substituído, a médica que assumiu, pegou minha ficha, saiu de perto e voltou minutos depois. Eu não a conhecia, mas não tivemos dificuldades...ela foi logo conversando comigo e me disse que era recém casada e me contou um pouco da sua vida. Me chamou a atenção, o quanto ela era novinha, toda bonitona, bem maquiada, de sorriso largo, gostei dela logo de cara! Na maior naturalidade possível, sem noção do que causaria dentro de mim, ela me diz a queima roupa: "Você vai pro quarto!"

"Nããããooo! Mentira!" Pensei. Fiz ar de quem não tinha gostado da brincadeira de mau gosto e ela insistiu: "É verdade, você vai pro quarto!" Meu Deus! Que barulho descompassado é esse? Meu coração ainda bate???

As lágrimas se uniram resolutas me denunciando e eu só sofejei: "Você está falando sério?" Ainda incrédula... era bom demais pra ser verdade!

"Tô falando sério, Dr. Fernando deixou a solicitação!" e um largo sorriso acompanhado!

Desculpe mas eu preciso escrever de novo: Você não tem noção!!!

A médica saiu e a enfermeira veio fazer alguns procedimentos de rotina.
A essa altura do campeonato, a ansiedade já tinha me possuído. Perguntei pra enfermeira se ela sabia que horas os pacientes eram removidos pro quarto no dia seguinte.
"Normalmente às 10:00."
"Ok" pensei, "amanhã vai chegar"!

"Acaso para Deus há alguma coisa demasiadamente difícil???" (Gênesis 18:14)


Quem foi que disse pra você senhora enfermeira que os pacientes são removidos ás 10:00 do dia seguinte? (riso, muito riso)... logo vejo a médica bonitona chegando e com as Boas Novas de um Anjo e ela sentencia: "Você vai pro quarto agora... vou ligar pro seu marido, quer que eu peça pra ele trazer o quê?" Estupefação é a palavra!!!


"Agora???"
"À noite???"

"Jura???"

Mais um sorriso largo e um simples: "hum hum!"
Sinceramente não sei o que eu respondi. Meu corpo não, mas meu espírito já estava saltitante pela UTI! Enquanto isso, o Rodney estava em nossa casa, umas 20:30 mais ou menos e o telefone toca:

-"Sr. Rodney?"
-"Sim, pois não?!"
-"Aqui é do hospital Evaldo Foz"
Ele conta que o coração gelou. Ele pensou em frações de segundos: "Estive hoje a tarde lá... porque me ligariam a noite? Meu Deus, a Márcia não resistiu!"

A enfermeira continua:
-"Sobre a paciente Márcia Christina Nunes Slemer"
-"Sim, sou o seu marido..." e o coração na garganta...
-" É que ela teve alta pra ir para o quarto, o senhor pode vir acompanhá-la?"
-"Claro! estou indo agora!" (Ufa!)


Fizeram todos os preparativos necessários e sem ninguém entender bolhufas, me levaram pro quarto quase 21:00. Quando entrei, o Rodney ainda não havia chegado e eu estava só, porém transbordante de felicidade por me ver livre da UTI. A enfermeira ligou a TV e estava passando o seriado "Mulher" com Eva Wilma e Patrícia Pillar, duas médicas na trama. Não me lembro de uma só frase, mas me lembro que isso ficou marcado em mim e enquanto eu esperava o Rodney
chegar, mesmo em toda a fragildade do meu corpo, ainda assim, podia sentir como se fosse a primeira vez o gosto da vida novamente! Eu olhava para a TV, mas meus olhos estavam no Senhor!

Meu coração estava batendo descompassado de novo, por Ele...
Que presente foi esse Senhor?
No meio da madrugada, na noite escura e fria, chegaste de mansinho.
Minha alma desfalecida já nem esperava mais pelo Senhor!
Sentindo o gosto de morte na boca repetitivamente e exaurida, escuto tua voz,
mansa, doce, meiga, sutil...


"Filha, onde achavas tu que Eu estava?"
"Achas mesmo que passaste a noite sozinha?"

"Suportarias se eu não estivesse ao seu lado?"
"Tens força pra isso filha?"

"Porque eu, o Senhor teu Deus, te tomo pela tua mão direita e te digo: Não temas que eu te ajudo!" (Isaías 41:13)

"Não temas porque eu te remi, chamei-te pelo teu nome, tu és meu! Quando passares pelas águas, eu serei contigo; quando pelos rios, eles não te submergirão; quando passares pelo fogo, não te queimarás, nem a chama arderá em ti!" (Isaías 43:1,2)

Me perdõe Pai por duvidar,
me perdõe por ousar me ver só...
insere no mais profundo da minha alma
e faz assim também na alma deste que lê agora,
a verdade da sua palavra que muitas vezes está em nossa mente
mas não se aloja no lugar certo: no âmago do coração, a tua palavra que diz:

"DE MANEIRA ALGUMA TE DEIXAREI, NUNCA, JAMAIS TE ABANDONAREI!" (Hebreus 13:5)
Quero concluir essa postagem te pedindo um favor: leia mais umas duas ou três vezes esse último versículo e inclua o teu nome depois da palavra "alguma"... mas não leia de você pra você mesmo, leia escutando o sussurro dEle! Porque na verdade é exatamente isso: é Ele falando!!!


2 comentários:

Wania & Mark Honman

Amiga, amiga,,,,, que bom saber que ELE NUNCA ira nos abandonar, nunca nos deixara sozinhas!! beijos -

Rose

Lendo com muito entusiasmo, carinho e com o coração aberto cada um de seus depoimentos, eu percebo que o Senhor não sussura, não fala, Ele grita comigo todos os dias!!rrss e as vezes a surdez causada por uma birra de Filha mimada, que quer ser atendida na hora que julga certa, não me deixa ouvir...VC está deixando meus ouvidos e meu coração mais sensíveis... acho que Ele não vai precisar mais gritar, pois estou mais atenta a Seus sinais.

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