6

Tu me cercas por onde quer que eu vá...


Quando o Rodney chegou, havia em nós dois motivos de sobra de celebração e gratidão ao Senhor. Eu me lembro de ter dito: "Aqui posso ficar mais três meses..." Se lembra que o médico tinha dito que seria pelo menos três meses de hospital?

Não me lembro exatamente como foi o dia seguinte, mas agora as pessoas podiam vir me visitar.

E muita gente começou a vir...

Gente de longe,

gente de perto,

gente que há anos eu não via,

muita gente mesmo!


Eu nem podia imaginar que fosse receber tantas visitas assim e foi maravilhoso pra mim agora poder ver cada rosto e ouvir o que cada um tinha pra me dizer... eram sempre palavras profundas que aqueciam o meu coração! Foi muito marcante pra mim rever meus irmãos. Numa noite, o quarto cheio de gente, o Paulinho entra e fala comigo cheio de carinho... atrás dele, entra o Marcos, meu irmão mais velho. Olho pra ele e o vejo todo contido... eu já sabia que os dois estavam muito mexidos, (sentíamos a mesma dor ter perdido os pais e sem necessidade de nenhuma palavra, estávamos solidários um com o outro). O Marcos tenta se conter, mas não consegue... e cai num pranto que eu nunca mais pude esquecer. Em pé ao lado da minha cama, não via meu irmão mais velho que eu dez anos, via um menininho assustado e muito triste, soluçando incontrolavelmente... o Paulinho se aproxima e tenta consolar como pode: "Ela está bem Marcos!" Alguns amigos se aproximam, abraçam, e aos poucos ele foi se acalmando... mas no meu coração, mesmo diante da dor, eu estava feliz por estarmos todos juntos de novo, mesmo nessa condição, mesmo num quarto de hospital...


E assim os dias passavam agora mais rápido, o quarto nunca ficava vazio, sempre tinha muita gente, as vezes até quinze pessoas de uma só vez. Além do mais, o quadro estava cada vez mais estável. O Senhor tratava e curava o meu corpo, mas fazia o mesmo com o meu espírito. Tudo era paulatinamente, muito sutil e em silêncio sempre, como julgo eu, é a forma predileta que o Pai tem de trabalhar! Cada dia era um progresso e eu também me lembro com exatidão o dia que Dr. Fernando disse que eu podia começar a comer um pouquinho! Que alegria! A gente perde muito facilmente a noção das coisas sabia? Nunca mais eu desprezei a honra de sentar a mesa e comer um pão com manteiga e uma xícara de café com leite... nunca mais.


Eu tive um desejo desatino por pêssego. Nem sei porque, eu nem gosto tanto de pêssego assim, mas eu queria porque queria, e disse até de qual mercado eu queria... rsrsrs! O Rodney (que marido), foi até lá buscar o pêssego dos meus desejos e trouxe a embalagem do supermercado pra eu não duvidar que ele tinha feito tudo à risca! Mal consegui comer um pedacinho, me senti mal, mas valeu a intenção, tudo era motivo de celebrar a vida, até um pêssego indigesto!

Papai do céu me cercava de todos os lados, pessoas cheias de compaixão, visitas deliciosas, conversas preciosas, parentes, tios, primos, amigos...


Ora um amigo saía do trabalho e ia pra lá quase todas as noites pra ler pra mim, ele ficava na cabeceira da cama, lendo Max Lucado e eu sendo afagada pelo Altíssimo! Ora, outros amigos de longe, viajavam horas, me visitavam e pegavam estrada de novo... ora, uma irmazinha querida da igreja fazia uma "via sacra" todos os dias pra estar lá, mas ela chegava e trazia sempre muita alegria e disposição pra qualquer coisa que precisasse dela... ora uma cunhada... um dia, chega com um monte de guloseimas, e quando eu questionei onde ela ia com aquele monte de coisas deliciosas, ela simplesmente responde cheia de ternura: "eu trouxe umas coisinhas para os seus convidados!", ora minhas primas entram rindo no quarto, contando que, quando foram pegar os crachás na recepção pra subir pro quarto, o recepcionista se antecipou e disse: "eu já sei, vocês vieram visitar a Márcia!" ...Era assim, o Altíssimo me fazia carinho na alma, usando pessoas pequenas e comuns, mas com um coração disponível e sensível à voz Dele. Cada uma dessas pessoas, na sua maneira única de ser, traziam refrigério a minha alma, muito mais do que podiam supor! Não posso nomear ninguém aqui, porque realmente muita gente mesmo andou a segunda, terceira, quarta milha por mim... só o Senhor pode recompensá-los e eu sei que Ele mesmo faz questão de fazê-lo!


O que eu desejo com tudo isso, não é demonstrar o quanto me sinto querida, especial, longe de mim e o Senhor o sabe, quero apenas com humildade, porém com ousadia, centralizar os seus olhos no CUIDADO DO PAI! Em todos esses atos que me marcaram profundamente, havia o cuidado atento e a presença sublime do Pai naquele quarto... passei a percebê-lo... Enquanto escrevo, um versículo lateja dentro de mim, e embora eu tivesse planos de falar sobre um episódio específico, vou deter-me aqui...

"TU ME CERCAS POR TRÁS E POR DIANTE, E SOBRE MIM, PÕES A TUA MÃO!" (Salmos 139:5)


Você pode imaginar essa cena? Pode imaginar o criador dos céus e da terra, o Deus de todo o universo, aquele que fez as estrelas, aquele que a Bíblia diz em Naum 1:3, que "as nuvens são o pó dos seus pés"... pode imaginá-lo te cercando como a mãe que deixa o filho que aprendeu a andar livre apenas alguns metros sob os seus olhos?!? Pode imaginá-lo te envolvendo? Pode percebê-lo com os olhos fitos em você, como o noivo, quando as portas da igreja se abrem? Não, não é exagero meu não, olhe o que o texto continua dizendo:


"... PARA ONDE ME AUSENTAREI DO TEU ESPÍRITO? PARA ONDE FUGIREI DA TUA FACE? SE SUBO AOS CÉUS, LÁ ESTÁS; SE FAÇO MINHA CAMA NO MAIS PROFUNDO ABISMO, LÁ ESTÁS TAMBÉM;

SE TOMO AS ASAS DA ALVORADA E ME DETENHO NOS CONFINS DOS MARES: AINDA LÁ ME HAVERÁ DE GUIAR A TUA MÃO E A TUA DESTRA ME SUSTERÁ!!!

SE EU DIGO: AS TREVAS, COM EFEITO, ME ENCOBRIRÃO, E A LUZ AO REDOR DE MIM SE FARÁ NOITE, ATÉ AS PRÓPRIAS TREVAS NÃO TE SÃO ESCURAS: AS TREVAS E A LUZ SÃO A MESMA COISA. POIS TU FORMASTE O MEU INTERIOR, TU ME TECESTE NO SEIO DE MINHA MÃE...GRAÇAS TE DOU VISTO QUE POR MODO ASSOMBROSAMENTE MARAVILHOSO ME FORMASTE... " (Salmo 139: 7- 14)


Percebe? Percebe o olhar grotescamente comparado ao olhar envaidecido de uma mãe para o seu filhote? Percebe um pai cercando o seu pequeno por onde quer que Ele vá? Consegue ler as entrelinhas de um Deus que não nos criou em "massa", e gritou lá do céu: "Lá vai uma fornada!" Antes, nos amou, formou de forma particular e individual? Veja:

"OS MEUS OSSOS NÃO TE FORAM ENCOBERTOS, QUANDO NO OCULTO FUI FORMADO, E ENTRETECIDO COMO NAS PROFUNDEZAS DA TERRA!" (Salmo 139: 16)

Não é utopia, é real! Porque Ele te ama assim?
Porque Ele é amor! Porque Ele escolheu te amar!
E não há nada que você possa fazer a despeito desse amor "desenfreado" de Deus por você!
Isso nunca significou que você não vá chorar, não vá sofrer e nem vá perder... tudo isso faz parte do teu crescer e ser melhor...
Mas uma coisa eu posso te garantir com cicatrizes próprias:

Passe você o que passar,


sofra o que sofrer,

perca o que perder,


chore o que chorar,


deixe o que deixar,


sempre,

SEMPRE...


por onde seus pés pisarem,

ELE TE CERCARÁ POR TRÁS E POR DIANTE, APAIXONADAMENTE, E SOBRE VOCÊ COLOCARÁ A SUA MÃO DE AMOR!

Fico por aqui, sem palavras diante dEle,
repetindo o que disse Davi quando se deu conta desse amor:

"... AS TUAS OBRAS ABBA, SÃO ADMIRÁVEIS, E A MINHA ALMA... AH! A MINHA ALMA O SABE MUITO BEM!" (Salmo 139: 14)





2

"Achas mesmo que passaste a noite sozinha?"




Se você ainda está comigo, estamos na UTI, os dias são intermináveis, as previsões são as piores possíveis, com um agravante: eu passaria pelo menos 3 meses no hospital e jamais teria filhos, porque meu útero fora profundamente lesado... meu marido não me disse nada assim que soube. Como eu reagiria a essas informações diante da ansiedade pra sair da UTI... e diante do fato que não tínhamos filhos?!

O médico que assumiu o meu caso, Dr. Fernando Cabral, era um homem muito ousado e querido também. Me lembro das visitas que ele me fazia, queria saber tudo, o que doía, aonde incomodava mais, e prestava atenção em mim como se fosse a única paciente dele. Recordo-me bem do seu cavanhaque perfeitamente desenhado e do seu perfume francês de muito bom gosto que ficava sempre que ele saía da sala. Ele sempre fazia carinho em mim e me transmitia otimismo, sem me fazer perceber a gravidade de tudo... quando na verdade, depois ele mesmo me disse que estava muito preocupado o tempo todo, sem saber se eu sobreviveria!

Num belo dia, ele decidiu que ia começar a remover alguns aparelhos progressivamente pra ver se eu reagiria. Soubemos depois que isso gerou um certo alvoroço entre os médicos da equipe, porque temiam que o quadro clínico agravasse... mas ele fez valer a sua decisão e numa noite, pediu que a enfermeira tirasse a sonda que ia até o estômago. Eu tinha acabado de tomar banho. Todos os banhos na UTI eram por volta das 20:00 e obviamente na cama. Vinham sempre duas enfermeiras ou uma enfermeira e um enfermeiro (em tudo na vida a gente aprende, eu estava tão entregue, que nem ousava fazer careta, no fundo nós não mandamos em coisa alguma, nem em nós mesmos), que jogavam literalmente água no corpo, nos cabelos, passavam sabonete líquido com muito cuidado, lavavam os cabelos (não posso até hoje sentir o cheiro do shampoo elseve, que eu usava na época... se fechar os olhos, me vejo na UTI, credo!!!) e depois enxaguavam sem medo de molhar tudo em volta. Era um banho mesmo, o problema começava pra enxugar... mexe daqui, vira um pouquinho ali, e eu, fazia o que? Começava a chorar de dor... (hoje eu dou risada, mas só hoje coleguinha...) Depois, era a hora de trocar os lençóis, e aí o bicho pegava mesmo. Primeiro eles me viravam com cuidado de um lado pra remover a metade do lençol molhado e começar a colocar o lençol seco, depois, viravam-me do lado oposto pra terminar de tirar o lençol molhado e terminar de colocar o lençol seco... você não tem noção do que era isso! Quando me viravam pro lado esquerdo eu morria porque era o lado que o cinto tinha "comido" (desculpe, mas não encontro palavra melhor, rsrs) meu abdômem; e quando me viravam do lado direito, terminavam de me matar porque eu ficava em cima do dreno de pulmão, cuja dor, eu não consigo descrever, e nem quero, porque senão começo a senti-la de novo!

Contei tudo isso (eu tinha que desabafar esse trauma, rsrs), pra te dizer que depois de toda essa saga, a enfermeira então, obediente a ordem do médico, me avisa que é hora de se livrar do primeira sonda. Já fazia alguns dias que eu estava com aquele túnel na boca... amei a idéia de removê-lo. Odiei pensar no processo. Foi terrível. Mais uma vez, sem dó nem piedade, aquela enfermeira começa a puxar a sonda que sai rasgando tudo por dentro, visto que está fazendo o caminho contrário... não dava nem pra gritar, a sonda estava saindo pela bocaaaaa!!!


E era sonda que não acabava mais, parecia que ia até meu pé, não até o estômago... que sensação horrorosa! Quando a infeliz saiu toda, o corpo sentiu imediatamente. Já fazia dias que eu não comia nem bebia nada. Me veio de imediato uma ânsia de vômito incontrolável. Nem deu tempo de avisar a enfermeira, apenas virei o rosto, não dava pra mexer o corpo, e vomitei muito. Não sei como havia tanto líquido verde escuro dentro de mim, mas havia, e eu vomitava e sentia dor na barriga que estava "costurada" de alto a baixo... a enfermeira assim que pode trouxe toalhas e tentou não me sujar muito, mas não adiantou muita coisa: outro banho!


A boa notícia foi, que conforme Dr. Fernando tinha previsto, meu corpo começou realmente a reagir, mas ele era muito cauteloso em dar esperanças. Num outro belo dia, cheio de suas ousadias, ele sugeriu que talvez me colocaria no quarto com toda a estrutura de UTI. Disse ao meu marido que seria um estímulo pra mim estar com gente, com as pessoas que eu amava, e isso provavelmente me faria reagir mais rápido.Mais uma vez, voto contrário da equipe médica. Não seria precipitação? Ou seria o criador dos céus e da terra dando a última palavra? Conduzindo as coisas como lhe apraz?


"O coração do homem pode fazer planos, mas a resposta certa, vem dos lábios do Senhor!" (Provérbios 16:1)

Sem previsões ao meu coração, sem notícias muito animadoras à família, num desses dias de novembro de 99, o Rodney me visitou os dois horários como sempre... eu lhe perguntei mil vezes tudo de novo como sempre, ele me consolou tudo de novo como sempre, foi embora como sempre e eu fiquei desolada como sempre. Nada animava o meu coração... quando você está vivendo o "vale da sombra da morte", em plena noite escura e fria, parece que o sol nunca vai nascer outra vez... parece que o coração nunca mais vai bater descompassado de alegria, parece que a vida nunca mais vai ter sabor de chocolate nas mãos de uma criança...

Lá estava eu, sentindo-me desconsolada, desamparada, totalmente só e sem esperança. Cada vez que dormia um pouquinho sonhava com meu corpo se desligando da terra, era terrível... Numa dessas noites, quando o plantão foi substituído, a médica que assumiu, pegou minha ficha, saiu de perto e voltou minutos depois. Eu não a conhecia, mas não tivemos dificuldades...ela foi logo conversando comigo e me disse que era recém casada e me contou um pouco da sua vida. Me chamou a atenção, o quanto ela era novinha, toda bonitona, bem maquiada, de sorriso largo, gostei dela logo de cara! Na maior naturalidade possível, sem noção do que causaria dentro de mim, ela me diz a queima roupa: "Você vai pro quarto!"

"Nããããooo! Mentira!" Pensei. Fiz ar de quem não tinha gostado da brincadeira de mau gosto e ela insistiu: "É verdade, você vai pro quarto!" Meu Deus! Que barulho descompassado é esse? Meu coração ainda bate???

As lágrimas se uniram resolutas me denunciando e eu só sofejei: "Você está falando sério?" Ainda incrédula... era bom demais pra ser verdade!

"Tô falando sério, Dr. Fernando deixou a solicitação!" e um largo sorriso acompanhado!

Desculpe mas eu preciso escrever de novo: Você não tem noção!!!

A médica saiu e a enfermeira veio fazer alguns procedimentos de rotina.
A essa altura do campeonato, a ansiedade já tinha me possuído. Perguntei pra enfermeira se ela sabia que horas os pacientes eram removidos pro quarto no dia seguinte.
"Normalmente às 10:00."
"Ok" pensei, "amanhã vai chegar"!

"Acaso para Deus há alguma coisa demasiadamente difícil???" (Gênesis 18:14)


Quem foi que disse pra você senhora enfermeira que os pacientes são removidos ás 10:00 do dia seguinte? (riso, muito riso)... logo vejo a médica bonitona chegando e com as Boas Novas de um Anjo e ela sentencia: "Você vai pro quarto agora... vou ligar pro seu marido, quer que eu peça pra ele trazer o quê?" Estupefação é a palavra!!!


"Agora???"
"À noite???"

"Jura???"

Mais um sorriso largo e um simples: "hum hum!"
Sinceramente não sei o que eu respondi. Meu corpo não, mas meu espírito já estava saltitante pela UTI! Enquanto isso, o Rodney estava em nossa casa, umas 20:30 mais ou menos e o telefone toca:

-"Sr. Rodney?"
-"Sim, pois não?!"
-"Aqui é do hospital Evaldo Foz"
Ele conta que o coração gelou. Ele pensou em frações de segundos: "Estive hoje a tarde lá... porque me ligariam a noite? Meu Deus, a Márcia não resistiu!"

A enfermeira continua:
-"Sobre a paciente Márcia Christina Nunes Slemer"
-"Sim, sou o seu marido..." e o coração na garganta...
-" É que ela teve alta pra ir para o quarto, o senhor pode vir acompanhá-la?"
-"Claro! estou indo agora!" (Ufa!)


Fizeram todos os preparativos necessários e sem ninguém entender bolhufas, me levaram pro quarto quase 21:00. Quando entrei, o Rodney ainda não havia chegado e eu estava só, porém transbordante de felicidade por me ver livre da UTI. A enfermeira ligou a TV e estava passando o seriado "Mulher" com Eva Wilma e Patrícia Pillar, duas médicas na trama. Não me lembro de uma só frase, mas me lembro que isso ficou marcado em mim e enquanto eu esperava o Rodney
chegar, mesmo em toda a fragildade do meu corpo, ainda assim, podia sentir como se fosse a primeira vez o gosto da vida novamente! Eu olhava para a TV, mas meus olhos estavam no Senhor!

Meu coração estava batendo descompassado de novo, por Ele...
Que presente foi esse Senhor?
No meio da madrugada, na noite escura e fria, chegaste de mansinho.
Minha alma desfalecida já nem esperava mais pelo Senhor!
Sentindo o gosto de morte na boca repetitivamente e exaurida, escuto tua voz,
mansa, doce, meiga, sutil...


"Filha, onde achavas tu que Eu estava?"
"Achas mesmo que passaste a noite sozinha?"

"Suportarias se eu não estivesse ao seu lado?"
"Tens força pra isso filha?"

"Porque eu, o Senhor teu Deus, te tomo pela tua mão direita e te digo: Não temas que eu te ajudo!" (Isaías 41:13)

"Não temas porque eu te remi, chamei-te pelo teu nome, tu és meu! Quando passares pelas águas, eu serei contigo; quando pelos rios, eles não te submergirão; quando passares pelo fogo, não te queimarás, nem a chama arderá em ti!" (Isaías 43:1,2)

Me perdõe Pai por duvidar,
me perdõe por ousar me ver só...
insere no mais profundo da minha alma
e faz assim também na alma deste que lê agora,
a verdade da sua palavra que muitas vezes está em nossa mente
mas não se aloja no lugar certo: no âmago do coração, a tua palavra que diz:

"DE MANEIRA ALGUMA TE DEIXAREI, NUNCA, JAMAIS TE ABANDONAREI!" (Hebreus 13:5)
Quero concluir essa postagem te pedindo um favor: leia mais umas duas ou três vezes esse último versículo e inclua o teu nome depois da palavra "alguma"... mas não leia de você pra você mesmo, leia escutando o sussurro dEle! Porque na verdade é exatamente isso: é Ele falando!!!


1

Não chore pequena criança grande...


Fui levada as pressas para UTI e já não pude mais ver meu marido...


Dá-se início a uma série de procedimentos, exames, e mais aparelhos...

E muita dor.



Era necessário refazer muitos exames e fazer novos também, porque ninguém sabia mais ao certo o que havia sido feito... o que podia ser feito ali no quarto, eles fizeram, mas para alguns exames mais complexos precisavam me colocar em aparelhos, levantar partes do corpo etc... e eu só fazia chorar e implorar pra que tudo aquilo acabasse e me deixassem em paz. Mas era necessário, não tinha outra maneira indolor.





Depois dessa primeira bateria de exames, fui "reconectada" a um monte de aparelhos que não sei nem o nome, só via um monte de fios e tubos, drenos, catéter, e o som interminável deles ao meu lado. Algumas coisas me incomodavam sobremaneira: o dreno de pulmão que dói demais, e eu tentava respirar o mais brandamente possível por causa da dor; também a sonda que ia até o estômago pela boca me parecia uma mangueira imensa e não tinha hora pra sair, o braço esquerdo latejava ininterruptamente numa dor sem descrição... Eu tinha muita sede, a boca ficava o tempo todo aberta, e quando era demais, eu pedia, e alguma enfermeira molhava uma gaze num copinho com água e passava na minha boca pra umedecê-la... sinceramente falando, não havia nenhuma parte do meu corpo que não doía, não havia alívio das dores... eu não sei porque, mas não havia mais veia pra tirar sangue, (talvez por causa do inchaço), então periodicamente, eu precisava coletar sangue e o único "ponto" que acharam em mim, foi no meu pé! No peito do pé. Não é nada de outro mundo certamente, mais somado com todas as outras dores e com a necessidade diária de fazê-lo, ah meu amigo, faz um copo transbordar!



Bom, pra abreviar, basta que eu diga que UTI é lugar de desespero, de solidão, de dor... quem está do lado de dentro, vendo cada minuto arrastar-se, tem a impressão que nunca mais vai sair, que nunca mais vai sorrir, que nunca mais vai ver o sol, que nunca mais vai viver de novo!



Pra mim foi assim, os dias eram intermináveis e eu almejava que a noite chegasse, para que pudesse dormir quem sabe um pouquinho. Quando a noite chegava, os procedimentos diminuíam e eles me davam remédio pra dormir, mas eu tinha pesadelos horríveis com o acidente, sonhava que estava me "desconectando" da terra, e acordava transtornadíssima, um sentimento avassalador dentro do peito... as dores não davam trégua, olhava em volta, um silêncio de vida e um barulho desafinado de aparelhos, tocando o que mais se perece com uma música fúnebre descompassada! As luzes baixas da noite, e de vez em quando um enfermeiro aparecia e perguntava se estava tudo bem, checava tudo a minha volta e eu mais que depressa perguntava que horas era. Quase morria quando ele dizia: "Uma e quarenta". "Uma e quarenta"??? Não pode ser! Isso significa que temos a noite toda pela frente! Meu Deus! E agora eu passava a almejar pelo Amanhecer, pelo raiar do sol e cada vez que o enfermeiro chegava: "que horas são?"



Mas quando o dia amanhecia, as coisas não melhoravam, e recebia duas visitas por dia, e só o Rodney podia entrar na UTI, e podia ficar menos que meia hora. Eram os dois únicos momentos de algum alívio. Ele passava aqueles minutos contando sobre a família e amigos, falava das pessoas que não paravam de ligar, falava que havia um monte de gente do lado de fora do hospital e me dava cada recado, de cada um, enquanto fazia carinho no meu cabelo ainda cheio de cacos de vidro. Me dava palavras de ânimo e dizia muitas vezes que a eu tinha que voltar pra nossa casa. Nós tínhamos um ano apenas de casados, eu tinha 23 anos e tudo parecia agora estar por um fio... Aqueles minutos eram os únicos em 24 horas que passavam rápido e logo, eu só visualizava as costas do Rodney passando pela porta da UTI e eu continuava lá!


Mas naqueles dias intermináveis, que pra mim foi o pior de tudo, (porque naquela UTI eu perdi as esperanças, e quando isso acontece, tudo perde o sentido),Deus estava crocheteando! Mas hoje, com outros olhos, depois de 9 anos, tendo digerido muito melhor minha "tragédia", eu vejo o Pai trabalhando no vigília da noite, vejo o Senhor silencioso porque tinha muito que fazer a meu favor e não tinha tempo pra falar e nem satisfações a dar a mim, pra Ele, o tempo bastaria pra desvendar quem Ele é!


Não tive momentos de trégua na UTI, mas eu me lembro de que o Senhor me trouxe a memória o Salmo 131: "Senhor não é soberbo o meu coração, nem altivo o meu olhar, não ando a procura de grandes coisas, nem de coisas maravilhosas demais pra mim. Antes, pelo contrário, fiz calar e sossegar a minha alma como a criança desmamada que se aquieta nos braços de sua mãe, como essa criança é a minha alma para comigo!" Aquilo consolou o meu coração! Eu não tinha filhos, nunca tinha atentado para o fato de que a criança desmamada não precisa mais do leite materno, ela se contenta em estar no "colo da mãe"! O Senhor sussurrou pra mim: "Daqui pra frente, eu serei seu pai e sua mãe..." Posso dizer uma coisa com a minha alma derramada diante Dele e de você também?

Fazem nove anos, e eu me sinto amparada como criança no colo do Pai! Ele tem cuidado de mim nas coisas grandes e nas pequenas, como aquelas coisinhas bobas que uma filha pede pra mãe sabe? Meu Pai faz por mim o que meus pais jamais poderiam fazer em vida! Sou a órfã adotada mais feliz do mundo! Sabe qual o nome do meu Paizinho? Aba!



Eu não sei o que você está vivendo, nem ao menos sei quem você é, mas talvez você esteja com um sentimento de solidão e abandono dentro do peito. Talvez as pessoas nem saibam, nem imaginem o que você passa ou sente, nem mesmo os mais íntimos... talvez as nuvens não queiram dar lugar ao sol e seu coração esteja olhando em volta sem respostas. Onde está Deus? Porque Ele não se importa? Porque não fala nada? Porque não faz alguma coisa a meu favor já que me ama? E os dias são intermináveis... eu também não tenho respostas prontas pra você, mas quero te dizer que, mesmo quando você não vê nada, mesmo quando você não entende nada, mesmo quando você duvida que Ele te ama, ainda assim, Ele está trabalhando, sonhando, arquitetando a teu favor! Você é filho! Nasceu no coração Dele! Ele te fez! Ele escreveu tua história como não fez com mais ninguém na face da terra, em época nenhuma deste mundo... faltaria amor no coração deste Pai? Ou será que você está olhando com os mesmos olhos da criança que chora inconsolável enquanto seu pai desce a rua logo cedinho seguindo em direção ao trabalho. (?) O dia mal amanheceu e seu pai já vai embora... enquanto ela o observa pela janela e tenta enxugar as lágrimas, pensa: "porque meu pai não me ama? porque me abandonou?" Não há abandono nenhum pequena criança, ele apenas saiu porque te ama, movido pelo amor que te tem, saiu junto com o sol e foi trabalhar! Trabalhar para suprir as suas necessidades, pequena criança. Não chore, ele vai chegar com suprimentos nas mãos e vai te surpreender...



"MAS SIÃO DIZ: O SENHOR ME DESAMPAROU, O SENHOR SE ESQUECEU DE MIM. ACASO PODE UMA MULHER ESQUECER-SE DO FILHO QUE AINDA MAMA, DE SORTE QUE NÃO SE COMPADEÇA DO FILHO DO SEU VENTRE? MAS AINDA QUE ESTA VIESSE A SE ESQUECER DELE, EU, TODAVIA, NÃO ME ESQUECEREI DE TI. EIS QUE NAS PALMAS DAS MINHAS MÃOS TE GRAVEI; OS TEUS MUROS ESTÃO CONTINUAMENTE PERANTE MIM!" Isaías 49: 14-16


Não chore pequena criança grande, Ele vai chegar com suprimentos nas mãos e vai te surpreender!