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QUANDO O FIO DE LUZ QUER APAGAR



Muito bem, negociação concluída, médicos a postos, numa manhã quente o jatinho pousa no hospital pra minha remoção. É porém, preciso lembrar, que nenhuma batalha feroz se ganha com facilidade, mesmo quando o Senhor é por nós... teremos aflições! E todas elas são permitidas por Ele pra nos fazer crescer. A hemorragia no meu intestino ainda era muito severa, e a médica responsável pelo plantão daquele dia impediu minha liberação.

O Rodney se angustiou, o pessoal do jatinho começava a fazer pressão porque o tempo passava e eles não tinham muito tempo. Se fossem embora, tudo estava perdido, inclusive o dinheiro e seria necessário recomeçar do zero. Nenhuma "carta na manga", nada a ser feito, a médica (movida pelo bom senso) estava irredutível, tudo o que os médicos podiam fazer já tinham feito, estava além da medicina...

... mas quem é Deus senão o nosso Deus?
Quem é este que chama as estrelas pelo nome e todas elas se apresentam, sem que nenhuma delas venha a faltar? (Isaías 40:26)

Quem é este que até os ventos e o mar lhe obedecem? (Mateus 8: 23-27)

Quem é este que diz: " os cabelos da vossa cabeça estão contados"? (Mateus 10:30)

Quem é este que Agindo, ninguém pode impedir? (Isaías 43:13)

Ah Ele não mudou! Ele ainda é o mesmo! Ele é o mesmo ontem, hoje, e o será para sempre!

Jesus ainda opera milagres, todos os dias...

Em questão de muito pouco tempo (1 hora talvez), a hemorragia do meu intestino estancou satisfatoriamente, sem nenhum motivo lógico, apenas foi diminuindo até o ponto da médica não ter mais argumentos e liberar minha remoção. (Obrigado Senhor!) Eu soube desses detalhes meses depois pelo capelão do hospital, de quem me tornei amiga e com quem falei algumas vezes pelo telefone. (Deixa eu te dizer baixinho: "Quando tudo está se esvaindo como uma hemorragia incontrolável, há um Deus trabalhando em silêncio por você!)

Tudo isso, obviamente eu soube bem depois, não se esqueça que eu estava morrendo, e pra quem está morrendo ninguém dá notícia alguma!

Quando vi, parecia filme, entraram na UTI, uns 4 homens uniformizados, começaram a verificar tudo, mexer em mim, fazer preparativos numa agilidade incrível sem dizer palavra. Resolvi quebrar o silêncio, uma vez que o que eu mais queria era ser removida: "São vocês que vão me tirar daqui?"
"É sim." E continuaram a fazer os procedimentos sem me dar muita bola, eu querendo "bater bapo", achando que minha vida estava a salvo, e eles querendo que eu calasse a boca pra que pudessem exatamente salvar a minha vida! Levou um tempo pra me colocarem na maca com os aparelhos, tudo era muito minucioso e eles estavam concentradíssimos. Tratei de fechar a boca e não demonstrar muita dor cada vez que tocavam em mim. Quando finalmente tudo estava pronto, na saída da UTI, um monte de gente se aglomerou pra se despedir, médicos, enfermeiras, estagiários... eu via apenas rostos, alguns com lágrimas que diziam tudo que as palavras não poderiam dizer, e fiquei surpresa, eu nem sabia que havia tanta gente assim que sabia do que havia acontecido e que agora tinha compaixão.

Lembro que já do lado de fora, antes de entrar no jatinho, vi muito rapidamente, meu irmão mais velho que ainda não tinha visto, e ele apenas conseguiu dizer: "Tudo vai ficar bem...", vi também meu primo Edmilson que esboçou palavras de consolação e me colocaram no Jatinho. O Rodney foi comigo e eu ouvi quando os médicos disseram pra ele: "Você precisa conversar com ela, ela não pode dormir". (É impressionante como mulher até morrendo escuta o que os outros falam), mas durante todo o trajeto, ele olhava pra mim e não dizia coisa alguma e eu não entendia o porquê. Seus olhos estavam estupefados e ele tentava disfarçar mas não podia. Bem depois eu soube (pra variar), que durante o percurso, ele fora avisado sobre mais um fator negativo que era a ação da gravidade. Não deu outra: eu fui inchando muito e cada vez mais... ele conta que me via inchando a olho nu, e começou a desesperar-se porque achava que eu ia morrer na frente dele. Detalhe: eu só tinha ao alcance dos olhos a cabeça dele, os médicos estavam em volta monitorando tudo num silêncio gritante.

Quando pousamos no aeroporto de Congonhas em São Paulo, a ambulância já estava à postos. Diante do quadro que ficara agora mais grave do que já estava, minha vida literalmente por um fio, os médicos mandaram o Rodney entrar na ambulância para poupá-lo mesmo se o pior acontecesse. Quando os médicos foram retirar a maca do jatinho, eu tinha inchado tanto que não passava mais pela porta do jatinho que havia entrado. Meu Deus que desespero! Vi aqueles homens perderem a "classe". Tentaram de algumas formas e nada. Resolveram que só havia uma coisa a ser feita, pior não podia ficar: "Ou vamos assisti-la morrer, ou vamos puxar essa maca". E foi o que fizeram. Quatro médicos grandões, viraram um pouquinho a maca, com cuidado por causa dos aparelhos e sem dó nem piedade (ou quem sabe com muita compaixão, as vezes pra salvar alguém a ação tem que ir além da piedade), eles puxaram com toda força aquela maca: que doooooooooooooooorrrrrrrrrrrrrrrr!!!!!!!!!!!! Eu ainda gritei! E ainda pensei: "Senhor, o que me falta passar?"

Me colocaram na ambulância e me levaram para o hospital Evaldo Foz em São Paulo. Me lembro com exatidão do som da sirene... um filme me passa na mente... Meu marido já não me viu mais, fui direto para UTI, recordo-me apenas de um monte de plaquinhas passando numa velocidade incrível na minha cabeça, um monte de corredores, e eu entregue nas mãos de pessoas que não diziam nada, apenas ponderando: "Senhor, será que vou um dia voltar pra casa?"

"DA MAIS PROFUNDA COVA, SENHOR, INVOQUEI O TEU NOME.

OUVISTE A MINHA VOZ; NÃO ESCONDAS O TEU OUVIDO AOS

MEUS LAMENTOS, AO MEU CLAMOR.

DE MIM TE APROXIMASTE NO DIA EM QUE TE INVOQUEI;

DISSESTE: NÃO TEMAS!

PLEITEASTE, SENHOR, A CAUSA DA MINHA ALMA,

REMISTE A MINHA VIDA! "(Lamentações 3:55-58)






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