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PASSANDO PELO VALE DA SOMBRA DA MORTE...




Quando ouvi o grito da minha mãe, era tarde demais... o caminhão passou por cima do nosso carro, e todos os que estavam comigo no carro, morreram imediatamente. Entrei em coma, e quando recobrei os sentidos, nada mais podia ser feito... eu estava totalmente presa nas ferragens, incapaz de mover um dedo sequer, as dores eram alucinantes... o cinto de segurança que me salvou, também rasgou o meu corpo e a profundidade do corte, foi até o intestino, perdi toda a musculatura do lado esquerdo do abdômen. Tive também uma severa hemorragia interna, perfurações no útero, pulmão e intestino... sangrava muito por fora, cotovelo direito dilacerado, muita dor nas pernas, como se eu as tivesse quebrado em vários pontos... meu Deus o que foram pra mim aqueles momentos?
 
Jamais saberia descrevê-los com exatidão, jamais transporia toda dor e desespero experimentados ali. Me lembro que quando acordei, o desespero tomou conta de mim, eu tentava respirar e o fôlego não chegava, eu sabia que estava morrendo, eu cuspia cacos de vidro, havia muito vidro em cima de mim e o meu corpo estava tomado pela gasolina, minha boca tinha gosto de sangue e gasolina. Quando eu procurava mexer alguma parte do corpo pra aliviar a dor intensa, o cinto de segurança me rasgava por dentro, a sensação que me vem à memória, era como de uma faca entrando cada vez mais profundamente... desespero, angústia, pânico, medo, sabor de morte... eu nem conseguia gritar, apenas gemia tentando com todas as forças respirar e cada tentativa de fôlego, me fazia experimentar o cinto de segurança dentro de mim.

Como eu não conseguia mover nada, nem o rosto, tudo estava espremido entre as ferragens, eu não consegui ver o estado dos corpos, e isso realmente foi um alívio pra mim. Pude ver no entanto, com dificuldade, (porque havia batido o rosto muito forte e não conseguia enxergar direito) a cabeça do meu pai caída logo a minha frente... muito caco de vidro sobre ele também, sua cabeça inclinada pro lado esquerdo, e muita "carne" em cima dele, no seu ombro, como se fosse "carne moída"... por aquela cena, eu sabia que todos estavam mortos.

No silêncio do Vale da Sombra da morte, rodeada por quatro corpos dilacerados, (eu soube depois que nenhum dos corpos foi identificado; minha prima, que fez o reconhecimento, reconheceu a própria mãe, irmão e tios, apenas pelos pés, pra que fossem enterrados) tomada pelo terror de ter perdido todos e estar morrendo, eu ouvi uma voz indescritível... cantando com a voz mais doce que eu jamais ouvira, uma música que tantas vezes eu tinha cantado numa igreja, sem jamais atinar para complexidade dela:
 
"Se paz a mais doce, me deres gozar... se dor a mais forte sofrer... oh seja o que for, tu me fazes
saber, que feliz sempre sou com Jesus!"
Enquanto vida eu tiver, jamais poderei me esquecer do que aprendi naquele momento... se você não me entendeu, leia de novo as palavras em azul, elas vão além do que eu possa tentar transmitir...


Passei muito tempo esperando por socorro, tempo suficiente pra sentir a morte como companhia, o local do acidente era de difícil acesso e a ambulância demorou muito pra chegar. Algumas pessoas foram se aglomerando em volta, mas eu tenho a memória de um senhor desesperado, suplicando a Deus por mim e dizendo que eu não ia morrer, que eu confiasse em Deus... gostaria de reencontrá-lo... ali eu não tinha forças mais pra lutar pela vida, só o Deus dos Impossíveis podia fazê-lo.
 
Uns quarenta minutos depois (uma eternidade pra mim), a ambulância chegou. Me lembro que o primeiro procedimento foi me aplicar uma injeção e aí cortaram o cinto de segurança, quando senti aquele cinto saindo de dentro de mim, lembro-me de pensar: "Já posso morrer..." Me colocaram na ambulância e me levaram para o hospital mais próximo: "Ferreira Machado" em Campos de Goitacazes - RJ. Fizeram os primeiros socorros e a cirurgia de emergência, mas eu cheguei num quadro tão grave, que ninguém apostava na minha sobrevivência, me "costuraram" como quem "costura" um defunto, e me colocaram no corredor daquele hospital.
 
 Quando acordei, já sem noção de tempo, comecei a chamar as enfermeiras pra que alguém localizasse meu marido, meus irmãos; nada é pior do que passar por uma situação assim e não ter ninguém por você, pior ainda, sentir a indiferença das pessoas. Depois de muito suplicar, vieram duas enfermeiras com um olhar de descaso impressionante, elas achavam que eu estava agonizando, e impacientemente esperavam apenas a hora de cobrir minha cabeça com o lençol e mandar meu corpo pro necrotério... eu pedi que ligassem pra minha casa, mas elas simplesmente ignoravam. Eu não sabia exatamente como meu quadro era grave, só sabia que meu corpo não reagia, é um estado de dor e desespero contínuo; comecei a sentir que precisava evacuar, na realidade, era só a sensação, por causa da hemorragia no intestino; eu avisei as enfermeiras e elas com a sensibilidade de um rinoceronte, me levantaram o abdômen e colocaram uma "aparadeira" em mim.
 
 Obviamente não fiz nada, e eu percebi quando se aproximou de mim uma moça que estava cuidando de uma senhora bem velhinha logo ali na minha frente naquele corredor, ela realmente ficou muito compadecida do meu estado e veio até mim e disse baixinho com doçura: "Olha, se você quiser, pode fazer que eu limpo você..." Talvez você não faça ideia do que isso significou pra mim, aquela moça não teve esse infeliz trabalho, mas me marcou pra sempre, com ela eu aprendi que pessoas certas, preparadas, não são necessariamente as melhores (no caso, as enfermeiras), mas pessoas com amor no coração, mesmo que despreparadas, fazem toda a diferença! O desejo do meu coração é que o Senhor abençoe essa moça e que um dia (quem sabe no céu), eu possa dizer pra ela o que representou pra mim sua atitude cheia da graça de Deus!

Por isso que lemos na sua palavra:
 
"Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios, e escolheu as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes; e Deus escolheu as coisas humildes do mundo, e as desprezadas, e aquelas que não são, para reduzir a nada as que são..." I Coríntios 1: 27-28.
 
Nós somos os desqualificados, os fracos, os pequenos, os incapazes; mas somos também os Amados, os Chamados, os Escolhidos por Deus para manifestarmos sua Graça e Amor a gentinha como eu e você... Minha oração por nós, é que sempre tenhamos consciência do quanto somos "coisa nenhuma", mas que sempre sejamos "coisa nenhuma" disponíveis nas mãos do que TUDO É!!!

(Continuo contando minha história na próxima postagem)

1 comentários:

Wania & Mark Honman

amiga, irma, querida como nao chorar lendo suas postagens! Olha hoje sinto mais perto de DEUS e vejo como ELE cuidou de voce de uma maneira excepcional.. li todas as suas postgems e fiquei muito abalada porem grata a DEUS por sua VIDA... e por isso continuo a dizer, escreva, escreva.. e please publique seu livro! te amo! vou parar senao o teclado vai inundar! beijo no coracao!

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