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Aniversário e enterro não combinam, mas ensinam profundamente!




O capelão do hospital, Pr. Arnaldo, (que eu mencionei na última postagem), foi quem intermediou a entrada do Rodney e meu irmão na UTI. Me lembro como se fosse hoje, que ele se aproximou de mim e fazendo carinho na minha cabeça com um sorriso terno me disse: "seu marido está aí... daqui há pouco você vai vê-lo!" Não estou certa se consegui esboçar um sorriso externo, mas meu coração se alegrou pela primeira vez. Quando eles entraram na UTI, o Rodney vinha na frente e me procurava entre os demais... ele passou por mim, olhou pra mim e continuou me procurando. Eu não entendi nada e lhe chamei baixinho pelo nome. Fui saber depois que ele não me reconheceu, eu estava totalmente preta dos pés à cabeça, com o rosto deformado, um braço do tamanho da perna... ele não me reconheceria mesmo... até hoje ele brinca que casou com uma Márcia e depois de um ano, voltou com outra pra casa...


Meu irmão se aproximou em seguida e não pôde disfarçar, seus olhos transmitiam angústia extrema e ele entrou, olhou pra mim, ficou um pouquinho ao meu lado e não disse palavra alguma. Eu apenas pedi ao Rodney que me tirasse daquele hospital e ele me assegurou que me removeria. Eu quis saber sobre o enterro, mas ele desconversou supondo que eu não soubesse ainda, mas eu sabia desde o começo que todos haviam morrido.


Tiveram pouco tempo pra ficar comigo e precisaram sair, foram embora e o Paulinho seguiu pra Guarapari para o enterro, junto com o Marcos que já estava lá, enquanto o Rodney corria pra me transferir pra um outro hospital. Eu, totalmente fora de tempo e horário, não soube que aquele dia seria o enterro... dia 3/11... dia do aniversário da minha mãe!


Como eu já contei, eu planejei fazer um bolinho pra ela, planejei comprar um presente, planejei reunir a família pra comemorarmos, planejei abraçá-la forte, olhar nos seus olhos e dizer que a amava muito, planejei cantar parabéns e vê-la ficar sem graça; minha mãe odiava olofotes... mas meus planos nunca se cumpririam. No dia do seu aniversário, ela estava sendo velada numa igreja com meu pai, minha tia e meu primo... quatro caixões, uma multidão de gente, muita dor e um enterro inesquecível...


Ah! Muitas noites eu acordei e chorei inconsolavelmente, muitas vezes eu disse pra Deus: "eu daria tudo para dar o último abraço na minha mãe", e eu daria mesmo! Muitas vezes eu lamentei porque, embora eu amasse meus pais e eles soubessem bem disso, naquela última viagem eu poderia ter simplesmente me doado mais, abraçado mais, amado mais... eu estava tão certa que tudo ocorreria como o planejado; doce ilusão, as coisas não são como planejamos, não somos donos das situações, nem de coisa nenhuma. Desde então, nunca mais eu esperei "a hora certa" pra dizer que amo alguém, nunca mais eu contive minha vontade de abraçar, nunca mais eu abracei indiferentemente, nunca mais eu deixei de olhar nos olhos e dizer: "Eu amo você".


Conto isso exatamente pra que você faça diferente. Eu errei, procuro não cometer mais o mesmo erro, você não precisa errar.

Deixa eu te dizer uma coisa: O dia que você tem pra Amar alguém é HOJE. Quem lhe garante que amanhã tudo será como foi hoje?

Quem lhe assegura que amanhã você ainda estará vivo? Quem lhe disse que você tem o tempo que você julga ter?

Não jogue oportunidades fora.

Ame e ame com intensidade,

Se desfaça das mágoas velhas e das novas também,

Decida dar novos rumos a sua vida,

Perdõe enquanto você tem chance de refazer seus laços,

Olhe nos olhos com paixão,

Leve à sério apenas ao Senhor e Seu reino, pra quê uma vida frenética, desesperada, sem tempo pra ninguém? Tudo fica nessa terra, e o que realmente importa são as marcas que você deixou nos corações daqueles que estão ao seu lado... no quanto você amou a Deus e ao seu próximo, o resto é "balela" como diria minha mãezinha!


"Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o bronze que soa, ou como o címbalo que retine.

Ainda que eu tenha o dom de profetizar e conhecer todos os mistérios e toda a ciência, ainda que eu tenha tamanha fé ao ponto de transportar montes, se não tiver amor, nada serei.

E ainda que eu distribua todos os meus bens entre os pobres, e ainda que entregue meu próprio corpo para ser queimado, se não tiver amor, nada disso me aproveitará!" I Coríntios 13: 1-3



Um tempo atrás, fui num enterro aqui em Recife, e enquanto seguíamos o cortejo para o enterro, passamos por uma sala aberta no cemitério e eu vi um senhor já de uns 70 anos sendo velado. O que me chocou é que havia apenas uma jovem senhora velando aquele homem e a expressão dela era mais de alguém entediada do que realmente sofrida. Não pude mais esquecer esse episódio. Como alguém morre e ninguém vai no enterro? Quem era aquele homem pra estar tão só no seu sepultamento? Que tipo de lembranças as pessoas tem dele, se é que se lembram dele?

Viveu tanto, e se não estou enganada, viveu mal... porque não amou e não foi amado...


Ame e ame enquanto é tempo, e o tempo se chama HOJE!!!
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BANDEIRAS DE DEUS



Logo depois do episódio com "a moça" (leia a postagem anterior), um médico enfiou uma seringa no meu abdômen e voltou com sangue, a hemorragia não estancava, ele apenas disse: "direto para sala de cirurgia", lá ia eu de novo... acordei e a cirurgia ainda não tinha acabado, só ouvi um assistente: "ela tá acordando", aplicaram uma injeção no meu pescoço enquanto eu tentava gritar de dor e tamparam minha boca e nariz, acho que pra adormecer logo, ou morrer de uma vez, rsrs... na hora que acordei, eles já tinham me "fechado" a barriga, e estavam colocando uma veia da perna na axila do braço esquerdo. Meu braço (eu soube depois estava comprometido) e corria o risco de gangrenar e precisar de amputação.

Nem sei quanto tempo depois eu acordei, mas me lembro de acordar na UTI e passar a noite inteira agonizando por dores que eu nem sabia mais onde eram, nem onde começavam ou terminavam, ao lado de um leproso que gritava a noite inteira "eu to todo cagado"... e ninguém aparecia, e quando aparecia era pra brigar com o pobre homem. Hoje, eu até consigo rir dessa situação, mas não queira saber o que ela custa na prática, recheada de indiferença!

Mas sabe, Deus não estava indiferente nem distante de tudo isso, pelo contrário, como Ele estava presente e eu não sabia! Num desses momentos, eu não sei exatamente a ordem, se aproxima de mim um homem sobremaneira gentil, ele fazia carinho na minha cabeça, tentando remover com cuidado os cacos de vidro ainda impregnados no meu cabelo cacheado e comprido, o que ajudava muito a ficar tudo um nó só!

Ele se apresentou e nos seus olhos eu podia ver a ternura de Jesus "impregnada" nele também... puxa vida, quantas vezes o Senhor pôde se manifestar através de mim e de você? Quantas vezes Ele pôde acariciar uma cabeça com as nossas mãos? Quantas vezes Ele pôde olhar com amor e compaixão com os nossos olhos? Pastor Arnaldo, Jesus me amou e se compadeceu de mim através dos seus olhos, do seu afago e do seu interesse pela minha vida, eu sei que Ele fez isso vezes incontáveis através da sua vida, e um dia, esse olhar lhe será dado de forma indizível, face a face pelo próprio Jesus, o príncipe da Paz!!!

Esse homem, foi uma Bandeira de Deus, dizendo pra mim: "Minha filha, Eu Sou contigo... " De maneira alguma te deixarei, nunca jamais te abandonarei." Hebreus 13:5
Ele que finalmente entrou em contato com o meu marido e me trouxe notícias.
(Vou abrir um parêntesis pra contar um pouquinho do que Deus fez do outro lado...)

No dia 2, o Rodney, meu esposo ainda dormia afinal era feriado; logo cedo o telefone toca e era a Agência Funerária perguntando sobre os caixões. Ele ficou muito assustado, porque nem sabia ainda do acidente, e imaginou que por ser dia de finados, era um trote. Mas a pessoa da agência deu o número da placa do carro, ele ligou pra polícia rodoviária e certificou o acidente... pânico pra ele e para os meus irmãos que moravam ao nosso lado! A notícia começou a se espalhar como fogo num incêndio, mas eles ainda não sabiam que havia uma sobrevivente, e depois quando souberam, apenas informaram que era uma mulher, mas não sabiam dizer quem... quanto tumulto, dor, desespero pra todo mundo que nem sabia o que fazer numa hora dessas... mas pra Deus não, Ele estava no controle de todas as coisas! Cuidava pessoalmente de mim em Campos, e de todos os que sofriam nessa hora.

Meu marido e um dos meus irmãos Paulinho, foram para o Rio de Janeiro, porque não havia voo direto pra Campos de Goitacazes, e o meu outro irmão Marcos, foi direto para Guarapari, onde seria o enterro dos quatro. Quando pousaram no Rio, receberam uma ligação avisando que a sobrevivente era eu, e no meio de tanta dor, puderam agradecer a Deus pela minha vida! E agora? Como ir pra Campos? Ônibus não tinha naquele horário, avião não fazia esse trajeto, táxi? Um absurdo! Ah! Mas existe um Deus que vai na frente abrindo os caminhos e fazendo o que ninguém mais pode fazer... O Rodney e o Paulinho já estavam desesperados sem saber o que fazer, meu marido teve a ousadia de contar pra um taxista a necessidade deles, esperando um milagre; e o milagre aconteceu!!! Aquele homem se compadeceu, e movido pelo Senhor, levou os dois num trajeto de 4 horas pra chegar até Campos e mais 4 pra voltar apenas pelo valor do combustível!!! Aquele homem perdeu seu dia todo de trabalho para abençoar pessoas que ele nem conhecia, eu sei que Deus não se esqueceu disso, e eu também desejo não me esquecer.

Que Deus é esse? Quantas Bandeiras silenciosas Deus finca no nosso caminho... bandeiras no vale da sombra da morte, que anunciam: "Não temas porque Eu sou contigo, não te assombres porque Eu Sou o teu Deus; Eu te fortaleço e te ajudo com a minha destra fiel." Isaías 41:10

Quando chegaram, não puderam me ver, mas foram recebidos por um casal (contatados pela minha prima em Guarapari), que lhes hospedaram de forma indescritível e assistiram em todas as suas necessidades, eu nunca os conheci, mas fico sem palavras diante do que fizeram por eles e por mim, até sem carro ficaram, pra que os dois pudessem cuidar das coisas do enterro, e de mim também... você percebe quantas bandeiras de Deus? Consegue ver as que Deus coloca no seu caminho? Elas estão aí, bem pertinho de você!
As vezes nós queremos manifestações de Deus, queremos que Deus fale, que Deus nos toque, que Deus apareça, que Deus se revele... e Ele está fazendo isso o tempo todo! Mas sem estardalhaço, sem alarde, pelo contrário, em completo silêncio...

Deus não precisa gritar pra anunciar o seu cuidado,
Deus não precisa aparecer de vestes brancas pra se fazer presente,
Deus não precisa dizer o que está fazendo por nós,
Ele simplesmente faz e deixa seu perfume por onde passa e nós embasbacados apenas compreendemos: "Deus esteve aqui e eu não sabia..."
 

As bandeiras de Deus... sugiro que você as perceba no seu caminho, te garanto que fica mais leve a jornada!


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PASSANDO PELO VALE DA SOMBRA DA MORTE...




Quando ouvi o grito da minha mãe, era tarde demais... o caminhão passou por cima do nosso carro, e todos os que estavam comigo no carro, morreram imediatamente. Entrei em coma, e quando recobrei os sentidos, nada mais podia ser feito... eu estava totalmente presa nas ferragens, incapaz de mover um dedo sequer, as dores eram alucinantes... o cinto de segurança que me salvou, também rasgou o meu corpo e a profundidade do corte, foi até o intestino, perdi toda a musculatura do lado esquerdo do abdômen. Tive também uma severa hemorragia interna, perfurações no útero, pulmão e intestino... sangrava muito por fora, cotovelo direito dilacerado, muita dor nas pernas, como se eu as tivesse quebrado em vários pontos... meu Deus o que foram pra mim aqueles momentos?
 
Jamais saberia descrevê-los com exatidão, jamais transporia toda dor e desespero experimentados ali. Me lembro que quando acordei, o desespero tomou conta de mim, eu tentava respirar e o fôlego não chegava, eu sabia que estava morrendo, eu cuspia cacos de vidro, havia muito vidro em cima de mim e o meu corpo estava tomado pela gasolina, minha boca tinha gosto de sangue e gasolina. Quando eu procurava mexer alguma parte do corpo pra aliviar a dor intensa, o cinto de segurança me rasgava por dentro, a sensação que me vem à memória, era como de uma faca entrando cada vez mais profundamente... desespero, angústia, pânico, medo, sabor de morte... eu nem conseguia gritar, apenas gemia tentando com todas as forças respirar e cada tentativa de fôlego, me fazia experimentar o cinto de segurança dentro de mim.

Como eu não conseguia mover nada, nem o rosto, tudo estava espremido entre as ferragens, eu não consegui ver o estado dos corpos, e isso realmente foi um alívio pra mim. Pude ver no entanto, com dificuldade, (porque havia batido o rosto muito forte e não conseguia enxergar direito) a cabeça do meu pai caída logo a minha frente... muito caco de vidro sobre ele também, sua cabeça inclinada pro lado esquerdo, e muita "carne" em cima dele, no seu ombro, como se fosse "carne moída"... por aquela cena, eu sabia que todos estavam mortos.

No silêncio do Vale da Sombra da morte, rodeada por quatro corpos dilacerados, (eu soube depois que nenhum dos corpos foi identificado; minha prima, que fez o reconhecimento, reconheceu a própria mãe, irmão e tios, apenas pelos pés, pra que fossem enterrados) tomada pelo terror de ter perdido todos e estar morrendo, eu ouvi uma voz indescritível... cantando com a voz mais doce que eu jamais ouvira, uma música que tantas vezes eu tinha cantado numa igreja, sem jamais atinar para complexidade dela:
 
"Se paz a mais doce, me deres gozar... se dor a mais forte sofrer... oh seja o que for, tu me fazes
saber, que feliz sempre sou com Jesus!"
Enquanto vida eu tiver, jamais poderei me esquecer do que aprendi naquele momento... se você não me entendeu, leia de novo as palavras em azul, elas vão além do que eu possa tentar transmitir...


Passei muito tempo esperando por socorro, tempo suficiente pra sentir a morte como companhia, o local do acidente era de difícil acesso e a ambulância demorou muito pra chegar. Algumas pessoas foram se aglomerando em volta, mas eu tenho a memória de um senhor desesperado, suplicando a Deus por mim e dizendo que eu não ia morrer, que eu confiasse em Deus... gostaria de reencontrá-lo... ali eu não tinha forças mais pra lutar pela vida, só o Deus dos Impossíveis podia fazê-lo.
 
Uns quarenta minutos depois (uma eternidade pra mim), a ambulância chegou. Me lembro que o primeiro procedimento foi me aplicar uma injeção e aí cortaram o cinto de segurança, quando senti aquele cinto saindo de dentro de mim, lembro-me de pensar: "Já posso morrer..." Me colocaram na ambulância e me levaram para o hospital mais próximo: "Ferreira Machado" em Campos de Goitacazes - RJ. Fizeram os primeiros socorros e a cirurgia de emergência, mas eu cheguei num quadro tão grave, que ninguém apostava na minha sobrevivência, me "costuraram" como quem "costura" um defunto, e me colocaram no corredor daquele hospital.
 
 Quando acordei, já sem noção de tempo, comecei a chamar as enfermeiras pra que alguém localizasse meu marido, meus irmãos; nada é pior do que passar por uma situação assim e não ter ninguém por você, pior ainda, sentir a indiferença das pessoas. Depois de muito suplicar, vieram duas enfermeiras com um olhar de descaso impressionante, elas achavam que eu estava agonizando, e impacientemente esperavam apenas a hora de cobrir minha cabeça com o lençol e mandar meu corpo pro necrotério... eu pedi que ligassem pra minha casa, mas elas simplesmente ignoravam. Eu não sabia exatamente como meu quadro era grave, só sabia que meu corpo não reagia, é um estado de dor e desespero contínuo; comecei a sentir que precisava evacuar, na realidade, era só a sensação, por causa da hemorragia no intestino; eu avisei as enfermeiras e elas com a sensibilidade de um rinoceronte, me levantaram o abdômen e colocaram uma "aparadeira" em mim.
 
 Obviamente não fiz nada, e eu percebi quando se aproximou de mim uma moça que estava cuidando de uma senhora bem velhinha logo ali na minha frente naquele corredor, ela realmente ficou muito compadecida do meu estado e veio até mim e disse baixinho com doçura: "Olha, se você quiser, pode fazer que eu limpo você..." Talvez você não faça ideia do que isso significou pra mim, aquela moça não teve esse infeliz trabalho, mas me marcou pra sempre, com ela eu aprendi que pessoas certas, preparadas, não são necessariamente as melhores (no caso, as enfermeiras), mas pessoas com amor no coração, mesmo que despreparadas, fazem toda a diferença! O desejo do meu coração é que o Senhor abençoe essa moça e que um dia (quem sabe no céu), eu possa dizer pra ela o que representou pra mim sua atitude cheia da graça de Deus!

Por isso que lemos na sua palavra:
 
"Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios, e escolheu as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes; e Deus escolheu as coisas humildes do mundo, e as desprezadas, e aquelas que não são, para reduzir a nada as que são..." I Coríntios 1: 27-28.
 
Nós somos os desqualificados, os fracos, os pequenos, os incapazes; mas somos também os Amados, os Chamados, os Escolhidos por Deus para manifestarmos sua Graça e Amor a gentinha como eu e você... Minha oração por nós, é que sempre tenhamos consciência do quanto somos "coisa nenhuma", mas que sempre sejamos "coisa nenhuma" disponíveis nas mãos do que TUDO É!!!

(Continuo contando minha história na próxima postagem)