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DEUS CROCHETEANDO A MINHA HISTÓRIA!




Sou um milagre de Deus,
Tenho orgulho da História que Ele escreveu pra mim...

Sou filha de pais missionários (Ecledino e Ilza), meu pai pastor com um coração voltado pra Deus acima de tudo, de suas falhas inclusive; minha mãe, mansa, mulher de poucas palavras, mas de profundas lições, olhar penetrante, sabia o que é chorar aos pés do Senhor e essa realmente é a impressão mais forte que tenho deles...

Quando nasci, meus pais estavam se preparando pra viver um grande sonho que lhes ardia o coração, missões, mais especificamente, entre os índios.

As recordações claras e fortes que tenho da minha infância, são exatamente no primeiro campo missionário propriamente dito, Alta Floresta, MT. Nossa casa era no meio do mato, não havia vizinhança; pra chegarmos a cidade, era um longo percurso à pé ou bons minutos de bicicleta, numa estrada de terra vermelha, e a selva dos dois lados. Meu pai, construiu toda a nossa casa, bem como tudo que havia de móveis nela, cama, guarda-roupa, mesa, cadeiras, tudo; com muito esmero por sinal, meu pai tinha como marca ser perfeccionista em tudo que colocava as mãos.

É muito forte na minha mente a impressão que aquele tempo me trouxe, embora com 5 anos de idade, me lembro da solidão gritante.
Solidão porque éramos isolados,
Solidão porque o que ouvíamos incansavelmente nesta floresta amazônica, era as araras, macacos, tucanos, cigarras, a selvarada toda... a umidade da mata alta e densa, a negridão absoluta que era muito pouco ofuscada por um lampião de luz frouxa e amarelada nas nossas noites longas. Também não tínhamos água encanada obviamente e meu pai construíra um poço, eu me lembro que tínhamos uma "escala" pra bombear manualmente água pra caixa d'água... como eu detestava levantar aquela manivela e fazer uma força enorme pra bombear a água pra cima, quando eu já tinha passado meia hora no poço e bombeado 5 litros de água, meu pai vinha rindo e me mandava entrar.

Solidão, porque meus dois irmãos mais velhos, trabalhavam como alfaiates e estudavam a noite na cidade, chegavam tarde o suficiente pra eu estar dormindo e vê-los muito pouco...minha mãe era a minha companhia sempre, muitas vezes só eu e ela.

São muitas lembranças... num desses dias em que íamos só nós duas para a cidade, no meio do caminho, que era mesmo um caminho estreito no meio do mato, minha mãe viu um jabuti enorme. Eu vi só um animal vagaroso, minha mãe viu a possibilidade de termos carne pro jantar. Não acreditei quando ela decidiu levá-lo pra casa. Me recordo que ela fez uma força sobre-humana pra carregá-lo, visto que eu era muito pequena para socorrê-la com o "socorro" que Deus tinha mandado. Quando chegamos em casa, minha mãe deixou a serviço do meu pai o resto do trabalho e o menu daquele dia; pena que a carne célebre não durou só uma refeição, foi provisão mesmo... arg!

Meu pai, muitos dias e muitas vezes, saía em busca daquilo que lhe tinha feito renunciar tudo e partir pra um mundo desconhecido, perigoso e aventureiro com toda a família: os índios! Essa paixão era maior do que ele, lhe consumia a necessidade de apresentar às tribos, Jesus Cristo de Nazaré. Lhe sangrava o peito os milhares que morriam sem salvação por nunca terem ouvido falar do nome daquele pelo qual importa que sejamos salvos!

Então ele pegava um barco, com alguns preparativos primários; pouco suprimento, um punhado de sal, arroz, óleo, etc, umas panelinhas; anzol e vara de pescar (ele tinha o rio amazonas todo só pra ele),um fogãozinho de duas bocas, uma rede e muita sede de encontrar uma tribo e fazer o primeiro contato... saía num barco à deriva, sem destino, num rio sem fim, silêncio absoluto na floresta virgem a sua volta, quando o sol se punha, era hora de amarrar o barco, armar a rede na mata ao som de toda espécie de aves, na companhia de onças, capivaras, cotias e a bicharada toda... mas ali estava seu coração.

Eu aprendi no entanto que a solidão é bendita! Numa dessas viagens do meu pai, numa dessas noites silenciosas, algo divino aconteceu.
Me lembro que eu amava dormir na cama com minha mãe, direito que só me era concedido nessas ocasiões. Minha mãe no entanto, diariamente, antes de me fazer dormir, lia um livro infantil de histórias morais, apontando sempre para o evangelho. Ele era pobre de figuras preto e branco, encapado num papel de presente verde, e suas folhas se soltavam com facilidade, mas como me foram preciosos seus ensinamentos regados pelo carinho da minha mãe.

Naquele noite em questão, ela leu pra mim, orou comigo e eu deitei muito satisfeita ao seu lado. Me lembro não com muitos detalhes, mas com muita convicção (tanto quanto a tenho hoje), que acordei chorando muito porque Deus, o Todo-Poderoso, falara comigo e eu não gostara do teor da conversa.
Ele havia me convocado, falara de forma límpida e resoluta que tinha pra mim uma causa: Eu seria missionária! E tenho bem registrada a cena do meu choro inconsolável... minha mãe acordou assustada, eu lhe contei tudo como tinha sido e terminei num soluço: "...eu não quero ser missionária, porque tenho medos dos índios!!!"
Embora merecesse uma gargalhada, minha mãe entendeu o que havia se passado, entendeu que de fato havia sido o Senhor e reverenciou aquele momento quase sacro. Ela olhou nos meus olhos, levando muito à sério minha angústia, e me fez entender que missões era algo muito além e muito maior do que minha mentezinha limitada e alta florestense podia absorver. Deus não me faria ser necessariamente missionária entre os índios (aleluia), Ele me levaria pra onde quisesse, da forma que desejasse, no tempo que presumisse e me faria feliz sendo sua "garçonete do céu"... eu entendi que eu apenas serviria o Pão da Vida aos famintos dessa terra e que isso me daria alegria de viver!

Compreendendo essa verdade no meu coração, fiz uma oração chorosa, muito consciente porém, porque mesmo tão criança, 6 anos, eu já absorvera as implicações de servir à Cristo... "Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me. Porquanto quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a vida por minha causa achá-la-á." Mt. 16: 24-25.

Eu nem sonhava os caminhos que percorreria pra que isso se tornasse realidade na minha vida...

Muitas histórias pra contar, e o resumo de tudo, é que o nosso trabalho no Senhor não é vão (I Co. 15:58)... hoje há, numa das aldeias, uma Igreja que celebra e professa o nome de Jesus Cristo como único e suficiente Salvador! Aleluia!

Depois de Alta Floresta, passamos por vários estados brasileiros, em todos eles, com o mesmo propósito missionário dos meus pais: fazer o reino de Deus conhecido e estabelecido!

E os anos se passaram, meu pai agora já não tinha mais a mesma saúde de ferro, lhe pesava a necessidade de estabilizar os filhos, já não dava mais para ser aventureiro. Numa decisão pesarosa, voltamos pra São Paulo, nossa terra natal, onde ele e minha mãe se dedicariam agora à uma igreja local e meus irmãos teriam oportunidades melhores de trabalho e estudo. Meu pai não satisfeito, mesmo sofrendo com a saúde, ainda fez umas três viagens missionárias, sozinho, para construir igrejas no Paraguai. Ele era exímio em mão de obra e passava quase 3 meses fora saciando a sede da sua alma por missões.

Eu vivia minha adolescência, e tão logo pude, quis fazer seminário. Na verdade eu mal me lembrava daquela noite em Alta Floresta, minhas motivações não eram as mesmas (pelo menos em sua maioria), que levam um indivíduo ao seminário. Eu desejava uma fase nova, amigos novos, um tempo novo pra minha vida... mal sabia eu que era Deus crocheteando, mal sonhava eu que aquilo era resposta das inúmeras orações dos meus pais por mim, mal supunha eu que Deus estava me dando estrutura pra o que viria logo depois.

Fiz 3 anos no Palavra da Vida, em Atibaia, foi um tempo preciosíssimo, inesquecível, ímpar! Um tempo meu com Deus, onde eu descobri que o conhecia de forma terceirizada, quando Ele anelava se revelar a mim de modo íntimo!
Um tempo meu comigo mesma, quando eu descobri que era um Diamante precioso pro meu Senhor, mas que era sobremodo bruto, ali Deus começava um longo processo de lapidação...

Me formei em 1997, me casei em 1998, rumando mais uma vez pra uma nova fase. Nessa época, trabalhava na igreja, trabalhava secularmente, me dedicava ao ministério Hesed, (grupo itinerante de louvor e fantoche) e ao casamento também.

Meus pais então decidiram morar em Guarapari- ES, terra natal dele, já tinha se aposentado, a saúde não lhe permitia extravagância alguma, mas mesmo assim ele assistia uma igrejinha bem distante, no meio do mato também, rsrsrs, há uns bons quilômetros de Guarapari.

Quando nosso ministério já tinha ganhado mais experiência, mais dinamismo e "cara própria", pleiteamos a ida de todo o grupo pra Espírito Santo. Eu fui na frente 2 meses antes só pra fazer os contatos com entidades, igrejas, rádios, por onde passaríamos em Janeiro de 2000. Feito nosso roteiro, eu precisava voltar rapidamente pra São Paulo onde lecionaria ainda naquela semana.

Minha mãe estava muito saudosa dos filhos, nós três ainda morávamos em São Paulo, meu pai também desejava um tempo com a família de novo, ele conseguiu liberação da igreja, contagiou sua irmã, que resolveu trazer o filho também e tudo deu certo, mesmo sendo tão de última hora. Compramos coisas da terra pros meus irmãos e parentes, macaxeira, água de coco, peixe, tudo muito apreciado por um paulista que não tem esses privilégios...rsrs. Minha mãe fez a mala como a criança que vai pro shopping com o pai que acabou de receber seu salário e está de bom humor!
Meu pai, nada metódico, lavou o carro um dia antes, abasteceu, fez os últimos reparos necessários na sua perua scort, seu troféu, (por ser o único carro zero que teve a vida toda),quase lustrava todo dia, rsrs. Deixou as contas pagas, dormiu o resto do dia todo pra garantir s viagem descansado: tudo perfeito!

Fui dormir bem tarde com minha mãe, auxiliando-a nos últimos preparativos, mais uma vez só eu e ela, conversamos um pouquinho e fomos dormir vencidas pelo cansaço e a expectativa da viagem. Acordamos umas 4 da manhã, as malas e as "bugigangas" todas já estavam dentro do carro, pegamos os pertences de mão, e na porta meu pai pediu pra que eu orasse. Orei na porta da sala pedindo ao Senhor que nos levasse em paz, e descemos as escadas até o carro com a sensação que Guarapari ainda dormia...

Passamos na casa da minha tia, e em poucos minutos, estávamos todos no carro, meu pai e minha mãe na frente, eu sentada atrás do meu pai, meu primo no meio e minha tia atrás da minha mãe. Meu pai determinou que todo mundo colocasse o cinto de segurança, eu coloquei mas pensei com meus botões: "na primeira parada que a gente fizer pra tomar café, (umas três horas depois), eu tiro o cinto e não ponho mais, porque ninguém merece 11 horas de viagem presa a um cinto". ... Deus crocheteando! Minha tia orou de novo, "vai que minha oração não tivesse subido?" rsrsrs, e pegamos a estrada.

Amanhecia dia 2 de novembro de 1999, terça- feira, feriado de finados. Logo que pegamos a estrada, começou a chover muito, minha tia e meu pai conversando, eu me lembro do comentário dele "...a chuva que Deus manda!", minha mãe, silenciosa como sempre, e eu ocupando meu pensamento com o pãozinho com manteiga na chapa e o café com leite que sempre tomávamos há anos no mesmo local toda vez que fazíamos o percurso Guarapari- São Paulo. Depois que tomei meu café telepático, fiquei planejando que chegaríamos quase 17:00, e eu precisava dar uma esticada ao shopping mais próximo pra comprar um presentinho pra minha mãe que faria aniversário no dia seguinte. Eu faria um bolinho pra ela, reuniria a família, viveríamos aquele momento que se vive diariamente em milhares de casas, casebres e casarões, onde habita uma família que se ama e que tem prazer de estar junto quando um membro faz aniversário... e nesses pensamentos adormeci.

Acordei pouco tempo depois com o grito de pânico da minha mãe: "Olha o caminhão!!!",
minha mente deletou o que aconteceu imediatamente após, mas naquele exato momento, se processava a maior tragédia da minha vida. Onde estava Deus? Aquele que eu tinha pedido tão sinceramente que nos levasse em paz? Bem ali. Exatamente ali. Ele sabia como ninguém mais, que a minha maior tragédia, se converteria no meu maior milagre... conto tudo na próxima postagem!

(Márcia Slemer)

7 comentários:

Wania & Mark Honman

Amada amiga, voce ainda continua me fazendo chorar!!! Lindo, otimo, maravilhoso... por favor continue a historia... to aguardando.. beijos TE AMOOOOOOOOOOOOOO

Wania & Mark Honman

amiga.... continua... to aki aguardando o proximo episodio!

Paulo

Querida, mesmo conhecendo toda sua história, é impossível ler cada palavra descrita sem que haja emoção, comoção... e vontade de aprender ainda mais com tudo o que Deus apresentou nesta tão linda e épica história, que já se eternizou em meu coração. Grande Beijo prá amada Família!

Sonia Mara
Este comentário foi removido pelo autor.
Sonia Mara

Constatei que não choro só quando ouço o seu testemunho, mas quando leio também...
bjs
amo você!!!

Crocheteando...momentos!

É uma bela história de vida!
Gosto de dar uma olhada ao seu blog!
Se quiser partilhar momentos me visite!!!

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